sábado, 12 de novembro de 2016

Nos tempos do Maipu


¨Na mocidade frequentava todas as noites o Maipu¨.  Foi assim que o Neni abriu a conversa na mesa ao lado. Embora a presença feminina fosse maioria naquele fórum etílico e gastronômico, a sentença do Neni foi a deixa para que os talheres e as taças de espumante ficassem de lado e toda a atenção concentrada no que seria relatado depois. Aqui convém esclarecer que o Maipu era um afamado cabaret que marcou época nos anos 40 e 50 do século passado, com diversificado e qualificado elenco de moças. Ficava no Centro de Porto Alegre e tocava tangos e boleros.  Exceto pelo cardápio musical, seria um Carmen´s Clube de hoje.

O fato de recordar o Maipu e de usar o termo mocidade são reveladores da senioridade do Neni, ele que já foi um guerreiro pegador dos mais bem-sucedidos.

Pois na mocidade o nosso amigo batia ponto todas as noites e arrastava uma asa para uma das moças mais bonitas da casa, mas não era correspondido.

- Eu era um pelado, vivia de mesada e ela dizia que de graça nem pensar.

O tempo foi passando e o Neni curtindo aquele desejo reprimido e rejeitado, até que um dia a sorte lhe sorriu.

- A moça aquela me procurou e disse que queria passar uma noite comigo.

Parece que ouvi um ohh de aprovação das colegas de mesa, enquanto o Neni continuava sua narrativa:

- Eu ainda expliquei para a moça que não tinha dinheiro para ela, nem para o quarto e o táxi, que era o mínimo que a gente oferecia nessas circunstâncias...

De novo parece que ouvi um outro ohh, mas em tom de frustração, até que Neni retomou o assunto em tom triunfal.

- Aí ela disse que eu não me preocupasse porque naquela noite era tudo com ela.

E lá se foram para um hotelzinho de encontros que existia no Menino Deus.  Era o clímax da história e dava para sentir uma tensão quase física no ar, ao redor da mesa ao lado. O clímax virou anticlímax diante da revelação de Neni:

- Na hora H, tudo pronto para uma grande noitada, eu vacilei...

O tal vacilo foi a forma atenuada de dizer que havia brochado, o que arrancou ohhs solidários de um lado e decepcionados de outro. Pior foi enfrentar a ira da parceira, como contou.

- Eu banquei tudo, motel, táxi e nem estou cobrando a minha grana e a única coisa que não podia acontecer era tua  brochada. Que papelão, não me procura mais. Aliás, nem me olha mais, - teria dito a moça, diante de um Neni envergonhado e à beira de uma depressão.

Ficou tão abatido e de tal forma preocupado com o episódio que decidiu consultar um psicólogo, pai de um amigo também frequentador do Maipu.

- Olha, acho que a não ereção se deveu a tua ansiedade, meu rapaz, - ensinou o especialista. E sugeriu:

- Faz o seguinte: consegue dinheiro com teu pai e parentes e tenta de novo com outra moça. Se não funcionar, volta aqui.

Neni seguiu à risca a receita e garante que dessa vez funcionou, sem dar maiores detalhes, obtendo mesmo assim ohhs vitoriosos das senhoras e senhoritas da mesa.

Foi então que me dei conta que tinha começado lá atrás, com um enorme fracasso, a trajetória de grandes e variadas conquistas amorosas do querido Neni. As derrotas, como se sabe, podem ser pedagógicas para os que sabem tirar delas lições para outros enfrentamentos. E foi assim que Neni havia se transformado num mestre e alvo de minha confessada inveja, eu que nunca mereci ohhs da mesa ao lado.