terça-feira, 12 de julho de 2011

Pessimismo e modernidade


O “Fronteiras do Pensamento” trouxe segunda-feira, 11, ao Salão de Atos da UFRGS o filósofo Luiz Felipe Pondé. Confesso que não conhecia Pondé, embora ele escreva regularmente na Folha SP e já tivesse participado de uma edição do Festival de Inverno, a convite do bom secretário municipal da Cultura, Sergius Gonzaga. Assíduo que sou do “Fronteiras”, o que posso acrescentar é que poucas vezes vi uma platéia tão atenta, eletrizada até, com a prosa vivaz, bem humorada e recheada de referências históricas, como ocorreu na conferência de Pondé. Como não sou egoísta, reproduzo uma boa síntese de Sônia Montaño sobre a conferência “Pessimismo e Modernidade”.

O conferencista, o filósofo Luiz Felipe Pondé, se propôs a responder e respondeu à pergunta que deu título a sua fala: Seria o pessimismo mais inteligente? Conforme o professor da USP, a pergunta nasce do fato de que a maior parte dos intelectuais só fala em desgraça. Ao mesmo tempo, “pessimismo” e “otimismo” apresentam suas dificuldades por não serem conceitos, são termos escorregadios que podem significar muitas coisas. Para Pondé, os avanços do mundo acontecem porque grande parte de filósofos, escritores e cientistas continuam a ser pessimistas. “Uma pessoa que sempre está alegre, você se pergunta se sabe o que está acontecendo à sua volta”, brincou o filósofo. O pessimismo, então, seria mais inteligente?


Refletindo sobre o dualismo pessimismo–otimismo no mundo ocidental, o colunista da Folha de S.Paulo lembrou que esperança é essencial para os seres humanos, e entre os pessimistas da história ocidental estariam o gnosticismo e o cristianismo, mas não só, o pessimismo teria prevalência na história do pensamento. Entre os exemplos de otimistas, o conferencista lembrou a filosofia grega, que é uma reação à tragédia grega, pessimista por natureza. “A filosofia, – Sócrates, Platão, Aristóteles – investe na ideia de autonomia do ser humano. Com o tempo ela cria um problema. A ideia de autonomia como capacidade do ser humano orientar a vontade a partir do intelecto ganha contornos sombrios na história ocidental”, explica Pondé.


Os dois humanismos


No Renascimento, a noção de humanismo tinha dois sentidos. O primeiro é um humanismo mais filosófico, aquele que é a base do otimismo moderno, que tem a visão do humano do filósofo Pico Della Mirandola (1463-1494), um homem cheio de potências a serem realizadas. A pergunta era: basta a filosofia para a felicidade ou precisa da fé? Os estudiosos de Aristóteles defendem a primeira opção, com a razão e o intelecto basta. É o que está na base da grande dogmática moderna, visão de autonomia intelectual como potência infinita para ser realizada. A natureza humana teria tudo para resolver os problemas que vão se apresentando à humanidade. O que nos falta é prática,  conhecimento, esforço. Essa ideia supõe conhecimento do passado para iluminar o futuro.
O segundo humanismo é o de um grupo que ficou conhecido como anti-humanista, entre os séculos 13 e 17, que afirma que não dá para confiar direito na natureza humana. No século 17, na França, esse debate é muito acirrado. Os otimistas venceram pelo surgimento da ciência moderna, a tecnociência. A ideia de ciência já trazia implícita uma relação direta entre ela e o bem-estar da humanidade. A maior parte dos seres humanos pensa que a ciência é um ganho.


“A ciência já nasceu com um otimismo implícito. Marca-passo, transplante, avião, computador. Mas a história da evolução científica está associada a uma série de problemas”, disse o conferencista.
Para Pondé, a espécie humana tem dentro dela certa violência e crueldade, e seria ingênuo lidar com os avanços da humanidade com otimismo total. Do ponto de vista filosófico, existe sempre a pergunta sobre o sentido da vida, que normalmente produz um pessimismo. “A vida é algo que no final sempre dá errado, e no meio dela, às vezes, você tem boas experiências”, ironizou o filósofo, lembrando que o ensaísta Michel de Montaigne (1533-1592) acreditava que as virtudes da velhice são a impossibilidade de realizar os vícios da juventude. Existiria, então, um pessimismo de fundo, uma angústia ligada ao cotidiano. A ciência, a liberdade e a democracia não teriam muito a dizer quando você descobre que seu filho de 15 anos tem um câncer e pergunta “por quê?”, buscando conforto. “Temos o medo de fundo de que a gente seja só pedra vagando pelo universo. É um assalto de pessimismo que nos acompanha”, diz o conferencista. A ciência avança muito em relação à extensão da vida, mas não consegue dar sentido para a vida.


O pessimismo e suas dúvidas funcionariam, então, como uma espécie de controle de qualidade, atenção contínua, avaliação de tudo o que o ser humano faz. Grande parte dos filósofos e intelectuais são pessimistas porque a história dá muitas razões para sê-lo. Luiz Felipe Pondé destacou o perigo que é quando um ser humano tem excessiva paixão por si mesmo, excessiva confiança no que faz. “O século 20 foi profundamente otimista. Pessimismo e otimismo são necessários o tempo todo.


Quando você é pautado por uma hibris, isto é, quer dar o passo maior que a perna, é bom ter uma crisezinha de pessimismo”, defendeu Pondé. Para ele, seria ingênuo achar que o debate está em ser contra ou a favor da ciência e da modernidade. Entre ciência e política, é necessário operar nesse equilíbrio entre pessimismo e otimismo. “Isso é o que o século 20 nos ensinou”, salientou Pondé.


O pessimismo seria a consciência, a dúvida. Mas, se alguém duvida demais, paralisa. O capitalismo só funciona no otimismo. Em momento de muitos avanços técnicos, é muito importante ficar atento, porque os avanços não são só fruto da nossa capacidade criativa. São fruto também da dúvida da própria capacidade criativa. É o perigo da eugenia, que, em certa forma, já estava com Platão em A república, onde projeta uma utopia, em que as mulheres mais bonitas e saudáveis teriam filhos com
os homens mais bonitos e saudáveis e seria o início de uma geração mais bela. A eugenia é um dos piores riscos do otimismo. “Me parece um enorme erro filosófico para alguém que vive em 2011 não perceber que devemos tomar cuidado com ideias como essa. Pessimismo no sentido de olhar mais crítico, mais lento, que parece pisar no freio em algumas coisas. Já tivemos exemplos suficientes de que os avanços técnicos precisam de cuidados com os projetos utópicos e os riscos que eles implicam”, defendeu o filósofo.


Para ele, o que sempre humanizou o ser humano é uma certa dose de sofrimento. A vitória e o sucesso são coisas fantásticas, mas podem ser ferramentas de desumanização, de impaciência com as pessoas vistas como lentas demais, que choram demais, frágeis demais. “A experiência do limite humaniza o ser humano, faz com que ele se sinta frágil, pequeno. O pessimismo seria um modo de olhar a humanidade”, concluiu o conferencista.


Encerrada a conferência, Luiz Felipe Pondé respondeu às perguntas da plateia. Questionado sobre o papel da ciência no desencantamento do mundo, ele lembrou como no Romantismo houve um reencantamento com a ideia de natureza e reafirmou a ideia de ciência como otimismo.


Perguntado sobre o fundamentalismo religioso, disse que a religião é um sistema de sentido que reúne comportamentos cotidianos e narrativas cósmicas que dão significado ao comportamento. O fundamentalismo seria uma reação a determinados índices da modernidade a partir de práticas da religião literais do texto sagrado. Um suposto retorno a um mundo religioso verdadeiro que teria sido destruído pela modernização, já que a modernização é vivida como desencaixe de tudo. Haveria,

então, uma visão pessimista em relação à modernização, mas ele oferece um reencantamento da vida.


Pondé comentou ainda sobre o problema do pensamento politicamente correto, como aquele pensamento covarde que simplifica a discussão, e disse que, se pudesse voltar para o passado, escolheria a Idade Média, já que foi muito injustiçada pelos iluministas. “Mas iria com passagem de volta”, brincou o conferencista.