segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

A Palavra do Ano à brasileira

*Publicado nesta data em Coletiva.net

Como temos a mania de importar modismos dos EUA, tipo Halloween, não me surpreenderia se em Terra Brasilis começássemos também a escolher a  Palavra do Ano.

Os americanos  desenvolveram um sofisticado processo envolvendo suas mais afamadas universidades para eleger a Palavra do Ano e o resultado, às vezes, é bizarro, como este ano em que a escolha recaiu sobre um número:  67. Tratei do assunto na coluna de 17/11 https://coletiva.net/colunas/academicos-sem-pauta,462387.jhtml

Apenas como exercício de imaginação qual seria a Palavra do Ano no Brasil? Sugestões é que não faltariam. No ano passado certamente seria “resiliência”, que resiste bem e aparece ainda em conversas e textos pós- desastres climáticos. Tem “perrengue” e “treta”, que surgem em nove  em cada dez  entrevistas das chamadas celebridades.  “Narrativa" tem vaga garantida  nos entreveros da política, assim como  “potente”, muito usada pelos palestrantes descolados para dar ideia de força.. O pessoal da corridas de rua adora um “bora” e nos comerciais tem aparecido com frequência o “corre”,  que acredito ser redução de corre-corre ou de correria.

Se me fosse dado o direito de escolher, sem dúvida colocaria minhas fichas em uma expressão que pegou: “quinta série”. No caso, não se refere diretamente à quinta série do ensino fundamental, mas serve para descrever um comportamento infantil ou imaturo, remetendo ao estereótipo de alunos dessa etapa escolar. Tempo de piadas de baixa extração, na maioria das vezes envolvendo órgãos e relações sexuais. Só não me peçam exemplos.

O mais preocupante é que espírito e comportamentos de quinta série contaminaram, pelo viés da idiotice, da sacanagem explicita e/ou da  imaturidade, todo o ambiente da atualidade,  da política às relações entre os poderes, passando pelos embates internacionais,  derivando para a programação das TVs, o protagonismo dos influencers e chega  ao futebol, que,  para nosso desgosto, diz respeito ao pífio desempenho da nossa  dupla Grenal  Tudo ficou muito raso.

Se serve como amostra desses tempos quintafeirinos, o que dizer da briguinha do Lula com o Alcolumbre em torno da indicação de Messias para o STF? E das recentes decisões de Gilmar Mendes blindando o STF e do Toffoli livrando a cara do “banqueiro” do Master? E do Bolsonaro indicando o filho Flávio como seu candidato à presidência da República, para preocupação da direita e satisfação da esquerda? E o barraco na Câmara depois que um deputado ocupou a cadeira do presidente e precisou ser retirado à força? Observe-se que listei ocorrências de pouco mais de uma semana apenas.

“Virou um frege”, diria dona Thélia, minha saudosa mãe que, em vida, acabaria com essas besteiradas todas com outra expressão digna de figurar, a seu tempo,  entre as palavras do ano : “Vão se afumentar!”.

*Como esta é a última coluna do ano desejo a todos os coletivenses boas entradas e melhores saídas em 2026, e poucas ou nenhuma incidência tipo “quinta série”. Até já.

 

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