terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Autofagia colorada

Se algo de bom aconteceu ao Inter neste ano foi ter jogado fora de casa a última e decisiva partida que confirmou o descenso. Imaginem se o jogo fosse no Beira-Rio: não haveria grade que segurasse a torcida e os gomos do estádio correriam sérios riscos.  Se bem que o time, diante da sua massa torcedora, não seria passivo nem conformista como o que enfrentou o Fluminense. Se...

Nada pode ser pior para um clube da grandeza do Inter do que frequentar a Série B e seus adversários aguerridos e campos que deixam a desejar, Brasil afora. Mas nada pode ser melhor para a coesão de uma grande torcida do que o desafio de empurrar o time para voltar ao convívio dos maiorais.  E vamos combinar que o rebaixamento não é o fim do mundo, ainda mais se cotejarmos com outros acontecimentos trágicos deste 2016 e com toda a agitação do cenário político brasileiro durante o ano.

O que fica do episódio, além da inevitável busca dos culpados pela derrocada –  temos obsessão por apontar culpados, como se isso resolvesse -   é que alguns dos principais personagens do drama vivido pelos colorados ficarão marcados para todo o sempre, assim como o foram Rafael Bandeira dos Santos e Flávio Obino nas quedas gremistas.

Como a confirmar a máxima do velho Marx de que a história só se repete em forma de tragédia e farsa, nem Celso Roth, nem Fernando Carvalho conseguiram honrar seus currículos na hora do cai-não-cai. O resultado  esteve mais para  tragédia do que farsa.  Pior ficou a situação de Fernando Carvalho, o mais vitorioso dirigente colorado de todos os tempos, que acabou sendo uma nova vítima de uma certa autofagia que tem contaminado o Inter e que consome a reputação de personagens colorados icônicos.  Ocorreu com Dunga e Falcão, antes e recentemente, e com Fernandão, este felizmente já resgatado e agora imortalizado no pátio do Beira-Rio.

Nesta hora vale para o Inter e para todos os que amargam reveses no esporte e na vida, uma crônica memorável do mestre Drumond, “Perder, Ganhar, Viver”, a propósito da inesperada eliminação do Brasil para a Itália, na Copa de 82: “(...) chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida.(...) Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.”


Fica essa modesta, porém sincera, colaboração de um gremista que já penou duas vezes pela Segundona.