domingo, 27 de junho de 2010

Fronteiras e a violência na África


Denis Mukwege hoje no Fronteiras

O Fronteiras do Pensamento apresenta nesta segunda-feira (19h30, Salão de Atos da Ufrgs) a conferência do médico congolês Denis Mukwege. Admito que sabia muito pouco do trabalho humanitário de Mukwege nos confins do Congo e foi oportuno o depoimento do médico gaúcho Milton Paulo de Oliveira no caderno Cultura da Zero Hora de sábado, 26. O testemunho de quem participou de missão promovida pela ONG Smile Train (Trem do Sorriso) em Bukavu no Congo é de emocionar, não apenas pelas dificuldades enfrentadas para tratar crianças com a deformação conhecida por lábio leporino numa das regiões mais pobres do mundo, mas também pelo conhecimento que travou com Mukwege.

Com formação em ginecologia e obstetrícia na França, o congolês poderia ter escapado para o exterior diante da violência decorrente dos conflitos internos no seu país, que resultaram, nos últimos 10 anos, em mais de 6 milhões de mortos e milhares de mulheres violadas e torturadas. Mas preferiu ficar e ajudar às vítimas das atrocidades dos infindáveis conflitos armados, especialmente mulheres e crianças.

Hoje, Mukwege dirige o Hospital de Panzi, onde realiza cirurgias reparatórias em vitimas de violência e torturas sexuais, criando ainda uma comunidade para as mulheres e meninas que se curaram no seu hospital e que passam a tê-lo como sua única referência familiar na busca da reintegração social,já que seus outros parentes foram dizimados pela guerra.

“Apesar da guerra, das atrocidades, das mais variadas violações dos direitos humanos no seu país, Mukwege tem o amor como única arma para manter intacta a fé na humanidade, enquanto continua a fazer seu trabalho de maneira incondicional e implacável”, testemunha o médico gaúcho. Graças a isso, Mukwege foi indicado para o Premio Nobel da Paz em 2009 (conferido a Barak Obama) após ter ganho em 2008 os prêmios das Nações Unidas de Direitos Humanos, Olof Palme (Suécia) e Africano do Ano.

O tema do Fronteiras será, portanto, pesado, mas é importante enfrentar e refletir sobre essa realidade perversa, que faz dos mais frágeis suas maiores vítimas, em pleno século 21.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A Holanda vem aí



Holanda 1974, a Laranja Mecânica e Holanda 2010, perigo à vista


Pelo que tenho visto desta Copa, só temo a Holanda. Desde 1974, quando Cruyff comandou a Laranja Mecânica, os holandeses vem apresentando altos e baixos em copas do mundo. Foram vices em 74 e 78 (perdendo o título para os anfitriões), não se classificaram em 82, 86 e 2002, foram eliminadas em fases iniciais em 90, 94 e 2006.

Em 94, convém recordar, a Holanda foi eliminada pelo Brasil nas quartas-de-final, num jogo duríssimo em Dallas, em que o juiz acabou dando uma mãozinha para o time do Parreira ao não marcar um pênalti – pra mim muito claro – para o adversário. Quatro anos depois, na França, enfrentamos novamente os holandeses num jogo dramático pelas semifinais: empate em 1 x 1 no tempo normal e vitória brasileira nos pênaltis, graças a duas defesas de Taffarel.

Lembro bem que depois do jogo de 94 assisti no centro de Dallas à movimentação dos torcedores holandeses, inconfundíveis com seus trajes e perucas laranjas, felizes da vida e confraternizando com brasileiros e brasileiras, apesar da derrota. A noitada foi de muita cerveja e cantoria, mas não registrei nenhuma confusão. Fiquei encantado com o comportamento dos holandeses e mais ainda com suas torcedoras, as mais belas daquela Copa.

Estive recentemente em Amsterdan, por breves horas, e pude constatar novamente o espírito festeiro dos holandeses. (Sim, vi as mulheres em oferta nas vitrines e dei uma conferida, a prudente distância, nos estabelecimentos que dispõem de um variado cardápio de canabis sativa, a nossa popular maconha. Mas passei ao largo de uma e de outra tentação. Minha praia não é por aí.)

Voltando ao futebol, observo que o retrospecto da Holanda em copas do mundo indica crescimento e boas colocações após uma fase sucessiva de baixa. Agora a fase parece ser de preocupante alta do futebol holandês, e preocupa mais considerando-se que o time laranja pode ser o adversário do Brasil nas quartas-de-final, se passarmos pelo Chile e eles pela Eslováquia.

Como em 94 e 98, vai ser dureza, mas acredito que passando pela Holanda o caminho ficará asfaltado até a final. Porém, se os deuses do futebol estiverem contra nós, vou me bandear para a torcida da Holanda, só para prestigiar as belas moças vestidas de laranja. Só que continuo levando fé no time do Dunga, apesar do futebol que não chega a entusiasmar. E que, depois, venha a Argentina. Enquanto isso, oremos!

domingo, 20 de junho de 2010

As lições de Invictus


Em boa hora chega às locadora o DVD de Invictus. A Copa na África do Sul coloca em evidência a história narrada com a competência e o talento de Clint Eastwood. Uma rápida sinopse do filme: eleito presidente, Nelson Mandela (Morgan Freeman) tinha consciência que a África do Sul continuava sendo um país racista e economicamente dividido, em decorrência do apartheid. A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi, pela primeira vez realizada no país, fez com que Mandela resolvesse usar o esporte para unir a população. Para tanto chama para uma reunião Francois Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe sul-africana, e o incentiva para que a desacreditada seleção nacional seja campeã, o que de fato ocorre.

Invictus é uma ode ao perdão e à reconciliação, mas, sobretudo, à grandeza. A grandeza que se expressa na direção de Eastwood que produziu mais um épico, embora Invictus não seja o seu melhor filme. Grandeza também na interpretação de Morgan Freeman. Só ele poderia interpretar, em todas as suas dimensões, o gigante Mandela. Um Mandela, marcado por 27 anos de cárcere, mas que não hesitou em enfrentar as resistências dos mais próximos para atingir um grande objetivo: unir seu povo por meio do esporte.

Não é a primeira vez que a força do esporte é utilizada como instrumento de coesão social. Mas, diferente da nossa experiência com o "Brasil Prá Frente", ou "Ninguém segura este país", da era Médici, que visava validar uma ditadura, Mandela assumiu claramente o rúgbi como um meio para chegar ao objetivo maior de reconstituir uma nação. A grandeza de uma nação está diretamente vinculada à grandeza de intenções e dos sonhos de seus líderes e essa é a principal lição que fica de Invictus.

Extra filme, algumas constatações. O rúgbi, mistura de futebol e futebol americano, é um jogo muito estranho. É um tal de agarra, agarra chatissimo, sem contar que a bola oval, jogada com as mãos, só pode ser passada para trás. Menos mal que na época retratada pelo filme as detestáveis vuvuzelas ainda não haviam invadido os estádios sul-africanos. Por fim, a reflexão que não quer calar: já pensaram se o Mandela dependesse da seleção do Parreira para unir o povo? Coitada da África do Sul.

Cala a boca Faustão

O pior desta Copa do Mundo é aturar o Faustão em todos os intervalos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

No mundo da Copa

Nasci em ano de Copa do Mundo, em 1950. Portanto, diferente do que dizem alguns dos meus detratores, não assisti aos jogos daquela Copa. Na verdade, só tive consciência do que era a competição em 1958 quando, numa manhã fria de julho, ouvi pelo rádio, na narração compassada de Mendes Ribeiro, a vitória do Brasil sobre a Suécia na final.

“Pelê, Pelê”, gritava o Mendes Ribeiro, trocando os acentos. Não sei se era bossa do narrador ou desconhecimento do verdadeiro apelido daquele que viria a ser o Rei do Futebol. O som do velho rádio valvulado era instável, vinha e fugia, de repente se expandia para logo depois ficar quase inaudível. Aquilo era magia pura para o garoto de 8 anos. Como era possível o som chegar desde a longínqua Suécia até minha casa na rua Bagé, em Porto Alegre e ser capturado pelo aparelho estrategicamente instalado na sala? Só anos mais tarde vim a comprender como funcionava a transmissão via SSB (single side band), o sistema que o mago engenheiro Homero Carlos Simon pôs a funcionar e que catapultou a recém inaugurada Rádio Guaíba à condição de principal emissora dos gaúchos. (No Google devem ter explicações técnicas melhores do que as que eu poderia fornecer).

O advento das transmissões via satélite, a partir da década de 70, acabou com a jornada épica que eram até então as coberturas de Copas do Mundo, tanto por TV como por rádio. Na TV, só em 1970, na Copa do México, tivemos transmissões diretas, ao vivo, mas ainda sem cores. Até então, assistir aos principais jogos só em VT que nem sempre eram fidedignos em relação às transmissões de rádio. Ficávamos desconcertados porque aquele pênalti inquestionável para o Brasil, denunciado no rádio, não era bem assim na exibição da TV. Alguma coisa estava errada. Os narradores e comentaristas certamente exageravam no conceito de que o rádio é o teatro da mente e não poucas vezes apelaram para a ficção em nome do patriotismo. Mas o rádio tinha credibilidade, por isso acreditava mais no que era narrado do que no que no era visto depois.

A partir de 1974, com a Copa ao vivo e a cores direto da Alemanha, participei de todas as coberturas dos mundiais de futebol, sempre na retaguarda, até 1994, quando fui escalado pela Rádio Gaúcha para coordenar a equipe da RBS em Dallas. Passei longos 52 dias em Dallas, uma cidade inóspita, cuja maior atração é o depósito de livros de onde Lee Oswald teria disparado o tiro mortal no presidente Kennedy. Teria tantas histórias para contar daquela experiência única, mas vou poupá-los de reminiscências saudosistas. O que eu observei na verdade, foi uma copa sem brilho, inclusive em relação ao futebol brasileiro, que conquistou o tetra com uma equipe pouco mais do que aplicada, onde despontavam a liderança de Dunga e o talento de Romário.

Depois de 94, virei telespectador de copas do mundo e confesso já não curto os jogos com o mesmo entusiasmo. Acho que todos estes anos ligadíssimo provocaram uma saturação. A overdose está cobrando tributo. O efeito colateral é que assisto à Copa de sangue doce, feliz a cada vitória brasileira, mas sem depressão em caso de fracasso.

Ajo, talvez, à semelhança da seleção do Dunga: nada de emoções extremadas, nada de grandes surpresas. Mas diferente de mim, um mero telespectador, a seleção tem uma missão a cumprir e aposto minhas fichas como o Brasil, com este time mediano ao estilo de Dunga, vai chegar lá, repetindo 94. Se isso acontecer, minha gente, mudo de atitude, vou explodir de alegria, estourar foguetes e sou capaz até de sair gritando “Brasiiiilllll”. Não me cobrem coerência nessa hora.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Marco Polo municipal




Em menos de dois anos, tive o privilégio de visitar a China duas vezes. Já estou me sentindo um Marco Polo moderno e municipal. Isso não faz de mim, entretanto, um profundo conhecedor da China e dos chineses, mas permite algumas observações sobre o surpreendente país asiático. A primeira constatação é de que na China as obras públicas andam e são entregues no prazo, apesar das dimensões macros do que é executado.

Quando lá estive em 2008, acompanhando o prefeito José Fogaça, o espaço reservado para a Expo Xangai 2010 não passava de uma área quase rural, com tudo para ser feito. O projeto podia ser visualizado - em forma de maquete - no Museu do Planejamento Municipal, uma visita imperdível para quem vai a Xangai. Em menos de dois anos, a área transformou-se na maior exposição mundial de todos os tempos. Linhas novas de metrô foram implantadas, assim como uma nova ala para o aeroporto internacional de HongQiao. Conjuntos residenciais inteiros, com torres acima de 20 andares, foram construídos nesse período. Como bem definiu alguém da comitiva de agora , Xangai lembra a Los Angeles futurista do filme Blade Runner,

Em Suzhou, cidade irmã de Porto Alegre, não é diferente. Ao retornar agora à chamada Veneza da China, com a comitiva liderada pelo prefeito José Fortunati, encontrei novas construções que não existiam em 2008. Sete linhas de metrô estão sendo implantadas (a cidade conta com 6 milhões de habitantes registrados ou 12 milhões, considerada a população flutuante) e duas linhas já estão prontas para operar. Enquanto isso, ainda lutamos para ter uma Linha 2 do Metrô em Porto Alegre...

Xangai e Suzhou crescem no ritmo da China, um ritmo alucinante para os padrões brasileiros. O segredo chinês chama-se Planejamento, previsto para um horizonte de 30 anos, e mais a mão de obra intensiva, pouca ou nenhuma resistência do povo às intervenções urbanas, articulação entre o poder central e os governos locais e recursos financeiros abundantes. A receita se completa com muito trabalho, determinação e disciplina, valores que fazem parte da cultura chinesa.

Mas é importante também observar um outro lado da China, para além do desenvolvimento acelerado. O trânsito nas metrópoles continua caótico, independente das grandes obras urbanas, das vias expressas e dos viadutos com até sete níveis. No trânsito, o motorista chinês contraria a índole disciplinada do povo e comete toda a sorte de barbáries: retorno no meio da quadra, fechadas que ficam a um triz da colisão, trocas de pistas sem aviso, desrespeito a sinalização, carros, motos e bicicletas disputando os mesmos espaços e muita buzina. Tudo isso a gravado pelo fato de que os chineses aprenderem a dirigir há pouco mais de 20 anos, quando a propriedade de um carro deixou de ser privilégio dos dirigentes do partido. O inacreditável é que ocorrem raríssimos acidentes de trânsito – é que eles dirigem em baixa velocidade.

A China é o paraíso das sedas e das pérolas para turistas-consumidores ocidentais. E a compra exige um ritual de negociação difícil de descrever. Os chineses são mercadores seculares e submetem os compradores a uma pressão que requer muita paciência e habilidade. É um verdadeiro jogo. Primeiro eles atiram o preço lá em cima à espera de uma contra-oferta. Recomenda-se revidar com um terço ou um quarto do preço pedido. Para isso eles oferecem as calculadoras, onde cada parte vai digitando os valores, os vendedores baixando pouco a pouco e os compradores subindo na mesma proporção.

Na verdade, a negociação é válida como exercício para regatear porque, na real , tanto as sedas como as pérolas - e também as confecções - são tão baratas que a vantagem é mínima. Um lenço de seda pura, por exemplo, pode ser adquirido por R$ 12 ou R$ 13,00 e um colar de pérolas por no máximo R$ 25,00. Mas é preciso seguir o ritual, porque o chinês espera esse comportamento do comprador. Dependendo do valor que for oferecido, ele vai exclamar, num inglês atravessado: “You must be joking” (“Você deve estar brincando”). É hora do comprador virar as costas e fazer menção de ir embora. O vendedor enlouquece e vai atrás, calculadora à mão e elogios à mercadoria, enquanto apela: “You friend. Last Price, last price”. E acaba digitando um valor muito próximo á última oferta do comprador, normalmente menos de 50% do preço original. Negócio fechado e partes satisfeitas. Com boa vontade, o comprador brasileiro ainda vai ouvir um “obligado”.

Essas negociações não valem para as lojas de grifes, sempre lotadas por novos ricos chineses e que mantém os preços inalterados. Não vale também para compradores americanos e alemães que pagam os preços pedidos. Países com moeda forte é outra conversa.

Uma experiência inesquecível é se aventurar no comércio informal. Os visitantes são abordados nas ruas por todo o tipo de ofertas, com destaque para os relógios Rolex – com pouquíssimas chances de serem verdadeiros. Esse comércio informal, tolerado pelo governo, é acessado através de corredores muito suspeitos, em prédios ao lado do comércio legalizado. Mas aparentemente não se correm riscos. O negócio dos chineses é vender. Lá dentro, separados em vários compartimentos, encontra-se de tudo: relógios em profusão, roupas com etiquetas copiadas de todas as marcas, malas e bolsas simulando as mais afamadas grifes, máquinas fotográficas, filmadoras e eletrônicos para todos os gostos. A negociação segue os padrões chineses de proposta e contra proposta.

A pantomina para garantir que o produto é de qualidade chega a extremos: assisti a um vendedor acender o isqueiro e aproximar a chama de uma bolsa, para provar a autenticidade da mercadoria. Minha tese é de que até o fogo era falso.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A formatura

Minha santa mãe, a dona Thélia, jamais me perdoou por não ter sido convidada para a minha formatura no Jornalismo da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, a Fabico da UFRGS. Acho que foi lá pelo ano de 1977, quando retornei ao curso para conseguir me graduar, depois de três anos afastado. À época trabalhava na Rádio Guaíba, já estava casado, passava férias em Florianópolis e precisei vir a Porto Alegre apenas para a formatura. A viagem foi em grande estilo, de avião, pela falecida Vasp, eu e minhas sandálias franciscanas, uma calça jeans surrada e camiseta.

E foi assim que me apresentei para a formatura numa das salas da Fabico, no final da manhã. Aqui cabe explicar que a turma da faculdade era um tanto alternativa, para não dizer anárquica, naqueles idos dos anos 70 do século passado. Eram uns 30 formandos, grande parte deles já veteranos, só esperando receber o canudo para regularizar a situação profissional. Mas ninguém escaparia ao ritual exigido para as formaturas, mesmo que de forma discreta e em sala de aula. Pelo que lembro, apenas uma colega teve a coragem de convidar a família para a cerimônia.

Os coitados dos familiares ficaram chocados com a algazarra que a turma fazia a cada nome chamado para o juramento profissional. Ao final, o professor Guerreiro, diretor da faculdade e condutor da cerimônia, fez uma fala breve e cumpridora. Em seguida tratou de encerrar o ato, porque um dos gaiatos formandos ameaçava com um discurso e homem não queria correr riscos de ouvir mais bobagens ou alguma critica ao regime ditatorial que vigorava no Brasil de então.

Depois da formatura, aproveitei para filar o almoço na casa da dona Thélia. Foi quando ela teve o choque:

- Veio para a formatura? Que formatura? E por que eu não fui convidada? Menino, isso não se faz com uma mãe!

Dona Thélia sempre prezou que os filhos cursassem a universidade e a formatura era o ápice desse orgulho materno. Acho que eu era o primeiro filho a se formar, não em arquitetura como ela gostaria, porém em Jornalismo que ela apenas tolerava, mas isso pouco importava diante da insensibilidade de não convidá-la para a cerimônia. Era muita desfeita para uma mãe zelosa com o futuro dos seus rebentos. Dona Thélia era uma figura, calabresa na origem por parte de mãe e, até por isso, não media as palavras quando era desfeitada.

- Olha o que este menino me aprontou. Não me convidou para a formatura, eu que sonhei com isso toda a vida.

Estava me sentindo o pior dos filhos e não adiantava explicar a simplicidade da cerimônia ou que eu não dava tanto valor ao ato.

- Pra ti pode não ter valor, mas pra tua mãe era muito importante. Agora o que eu vou dizer para as tuas tias e as amigas da Igreja?

Essa era a chave para compreender o tamanho da frustração da dona Thèlia, que mantinha uma disputa velada com suas irmãs e as amigas devotas, comparando quem tinha mais filhos na universidade. Que curso sem valor era esse que o filho tinha vergonha de levar a mãe para a formatura? Dona Thélia perdia pontos preciosos na competição e isso eu só avaliei durante o sermão naquele indigesto almoço. (Ela dava tanto valor as formaturas que, anos antes, no colégio Rosário pediu ao Irmão José Otão, então reitor da PUC, para que me entregasse o diploma de conclusão do curso ginasial. O bondoso irmão concordou e lá fui eu, todo pimpão, de fatiota, receber o canudo da mais alta autoridade da mesa)

Deve ter sido praga de mãe, e praga poderosa, as torturas a que tenho sido submetido, desde então, em formaturas. Já vi de tudo: formatura com dois paraninfos, vale dizer dois longos discursos, dancinhas no palco, cultos ecumênicos, discursos inflamados, brincadeiras de mau gosto, cornetas e apitos a mil, estapafúrdias seleções musicais dos formandos e muito mais, consumindo pra lá de três horas. Padeci com dois ou três discursos da ex-reitoria da Ufrgs, Wrana Panizzi, que adorava uma formatura e nunca falava menos de 45 minutos. Suportei, certa vez, um paraninfo que relatou o histórico e a evolução da Contabilidade através do tempo. O pessoal batia palmas cada vez que ele trocava de folha, mas o sujeito continuava impávido. Em outra circunstância, o diretor da faculdade esqueceu o barrete na Ulbra, em Canoas, atrasando a cerimônia em uma hora, tempo em que fomos brindados com um concerto de música bate-estaca a todo o volume.

A partir dessas experiências, cunhei o termo "formatortura" para expressar meu desagrado com as longas e chatas cerimônias, o que a Reitoria da UFRGS, em boa hora, quer disciplinar, racionalizar e simplificar. Dou força, mas sei que não vai ser fácil. A formatura é rito de passagem, mesmo que seja para uma carreira profissional incerta. Para os pais, representa o resultado final de um investimento, mais do que financeiro, na geração futura. E existe toda uma lucrativa indústria em torno das formaturas, faturando em cima desse momento, de grande apelo emocional porque pode ser único na vida das famílias.

Devo confessar que também fiz minhas macaquices e curti muito as formaturas dos meus filhos mais velhos – Rafael em Educação Física e Flávia em Psicologia. Nas duas cerimônias, foi inevitável a lembrança da mágoa e da frustração da dona Thélia por não ter participado da minha formatura. Ali estava eu, feliz da vida com o sucesso dos meus filhos, mas carregava a culpa de não ter permitido que a dona Thélia realizasse o sonho de ver seu filhinho formado, mesmo que fosse em Jornalismo. Deu nó na garganta. Mãe, como eu gostaria de poder voltar no tempo e reparar aquele equívoco da juventude. (Entendeu Mariana?)

* Mariana, meu nenê, vai se formar este ano em Relações Públicas na mesma Fabico. Aí mora o perigo.

sábado, 15 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: o dia em que o Tupy humilhou o Inter



Em 29/10/66, naPraça Tamandaré, mais uma vitória do Tupi sobre o Ararigbóia - 1 x 0. O glorioso time do Tupy: de pé: Fininho, Renato (“cartolas”), Oscar, Flávio, Felipe, Piero, China, Luciano (técnico);Agachados: Geada, Calão, Julinho (mascote), Zé do Burro, Alfredinho, Beto. Detalhe: o time formou com apenas 10 jogadores !?

Já contei aqui alguns episódios esportivos vividos pela turma de Petrópolis na adolescência. Sábados à tarde ou domingos pela manhã e à tarde, ou ainda nos três horários em seqüência porque éramos imortais à época, dedicávamos ao futebol pelo Tupy ou pelo Bagé. A várzea de então era um manancial de times, cada bairro tinha cinco ou seis, rivalizando entre si.

Nosso campo era a praça Tamandaré, entre as ruas Caçapava e a Taquara. O principal rival do Tupy era o pessoal do Ararigbóia, que ficava do outro lado da Protásio Alves e tinha a liderança do Cláudio Furtado, de tradicional família de políticos e gente da comunicação. Pelo Bagé, de azul e branco, a rivalidade era contra o Concórdia, que tinha vermelho na camiseta (algo a ver com a rivalidade grenal?) e que disputava seus jogos num campo após o valão da rua Lavras, onde hoje é a avenida Nilópolis.

Já o pessoal do Ararigbóia era constituído de uma gurizada de boa formação, educada, “bundinhas” como nós desdenhávamos, em contraste com a turma da Tamandaré, um bando de briguentos e arruaceiros, no limite da marginalidade, com exceções, entre as quais me incluo. Jogo entre os times das duas praças era um clássico, cheio de provocações, lances ríspidos, torcidas incentivando a violência e muito trabalho para o coitado do sujeito que se aventurasse a apitar aquela verdadeira guerra. Entretanto, sobrevivemos todos, apesar de alguns jogos terem descambado para a pancadaria, dentro e fora do campo, durante e depois dos jogos.

Pelo campeonato municipal infantil, promovido pela prefeitura, com o Tupy ou representando a Tamandaré, jogávamos em outras praças, diante de adversários bem mais hostis que o Ararigbóia. Ou mais qualificados, como o time do Internacional, treinado pelo grande descobridor de talentos Jofre Funchal. Um dos enfrentamentos ocorreu em novembro de 1967 no campo do Parque 1º de Maio, no IAPI. Foi um jogo duríssimo, que terminou empatado em 1 x 1 no tempo normal, com vitória colorada nos pênaltis, por 5 x 4.

A partida valia uma vaga para a fase seguinte e o Tupy acabou desclassificado. Mas empatar contra o Inter era uma façanha que mereceu muitas comemorações da grande e ruidosa torcida que levamos ao IAPI.

Na época a gurizada do Tupy fazia uma coleta entre todos os simpatizantes e alugávamos um microônibus da Transportes Sentinela para conduzir a delegação e parte da torcida, aí incluída uma banda e seus instrumentos de percussão. E assim chegávamos cheios de bossa, altivos e motivados, nos campos adversários, diferente de tempos atrás quando os deslocamentos eram feitos num caminhão de transporte de adubos (relato já contado aqui).

Pois ocorre que após o embate contra o Inter, de volta para Petrópolis, encontramos seu Jofre, humildemente cuidando do saco do uniforme, e mais alguns jogadores colorados à espera do ônibus numa parada do IAPI.

- Para, para, para o ônibus que nós vamos dar uma carona para esses maloqueiros do Inter, alguém gritou.

O microônibus já estava lotado de jogadores e torcedores, a batucada e as bebidas corriam soltas, mesmo assim abrimos espaço para os caronas, que entraram sestrosos. Era a hora da desforra. Logo começaram as provocações:

- Agora vocês vão levar um pau, ouviu-se lá do fundo.
- Vocês não vão sair vivos desta, ameaçou outro.
- Ganharam no jogo, mas vão perder na briga, prometeu mais alguém.

Seu Jofre sorria amarelo e os guris colorados arregalavam os olhos, assustados, cada vez que um dos nossos gritava alguma coisa ou ameaçava partir para a agressão. Na verdade, tudo não passou de uma brincadeira agressiva, de muitas ameaças e nenhuma ação. E a delegação colorada foi levada até seu destino sem maiores percalços. Estávamos por demais eufóricos com o resultado para provocar confusões. A carona, com toques de humilhação ao grande Inter, era a melhor revanche para os brancaleones de Petrópolis.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Circo de Petrópolis: um gol para a história



Na várzea de antigamente era comum se formarem times de veteranos, reunindo os trintões e quarentões, gente relativamente em forma, mas que não agüentava o tranco contra a gurizada do primeiro quadro ou dos aspirantes. As manhãs de domingo ficavam reservadas aos jogos dos veteranos diante de similares de outras equipes e havia muitas para intercambiar. A vantagem é que depois dos duros embates a turma master podia encher a cara de cerveja e traçar um churrasco de carne gorda, sem outros compromissos a não ser dar explicações à patroa em casa.

Também não havia muita preocupação com a forma física e os veteranos, com a dieta de cerveja e costela gorda, exibiam abdomens cada vez mais arredondados. Mesmo assim não lembro de lesões graves em qualquer dos jogos a que assisti e foram muitos no campo da Praça Tamandaré.

Lá pelo final dos anos 60 resolvemos montar um time de veteranos no Tupy. A idéia continha uma estratégia maliciosa: como não tínhamos dinheiro para renovar nossos fardamentos, imaginávamos que os mais velhos poderiam de alguma forma contribuir generosamente para manter o time da gurizada. Um detalhe é que os nossos “veteranos” estavam na faixa dos 25, no máximo 30 anos, mas todos trabalhavam, alguns ganhavam bem e eram potenciais mecenas.

Marcamos o jogo de estréia dos veteranos para um domingo pela manhã. Disciplinados e motivados, todos chegaram no horário e o que se viu, quando o time entrou em campo na Tamandaré, foi de dar dó. Os veteranos simplesmente não sabiam se posicionar em campo e, tal como em jogo de crianças, corriam todos atrás da bola. Naquele dia foi criado o esquema 10-1. A simples cobrança de um lateral virava uma ação dramática. Troca de passes, nem pensar. Saída de bola representava perigo de gol. Tentativas de parar os adversários com faltas era tiro pela culatra: nossos atletas é que ficavam prostrados no chão depois de quedas espetaculares, senão risíveis. O goleiro soltava todas as bolas que vinham a gol, pulava antes ou depois de a bola passar, uma trapalhada atrás da outra.

O almirante Tamandaré, que empresta seu honrado e glorioso nome à praça, deve ter se revirado na cova com as cenas patéticas que se desenrolaram no gramado. (Aliás, uma das lendas urbanas da época é que o almirante teria direito a um busto na plataforma de concreto construída na parte mais alta da praça, mas o Tamandaré e seu busto ficaram a ver navios, com o perdão do trocadilho marítimo). O adversário, formado por gente mais nova, não entendia bem o que estava acontecendo, mas começou a empilhar gols aproveitando a fragilidade da nossa defesa, a desarticulação do nosso meio campo e a inoperância do nosso ataque.

O mais difícil era fazer os veteranos reagirem. Havia uma inversão de papéis, porque o time estava sendo comandado fora do campo pelos jovens, enquanto os mais velhos simplesmente não atendiam às ordens e orientações. Foi impossível evitar algumas cenas dignas de comédia pastelão. O Zezinho, meu cunhado e craque perto dos outros, levou um drible, tentou se recuperar e foi driblado de novo. O revide foi uma ameaça:

- Olha aqui, guri, me respeita. Mais um “paninho” desses e eu te parto ao meio, avisou.

O Zezinho era do tipo miúdo, mas como a maioria dos baixinhos, metido a invocado. O guri parece que se assustou com a ameaça e trocou de posição para evitar novos enfrentamentos.

Durante todo o jogo chutamos apenas uma bola a gol. O autor da façanha foi meu irmão mais velho, o Luiz Vicente, que conseguiu bater de direita, de fora da área, sem perigo para o goleiro. A conclusão saiu depois de, pela enésima vez, ele retirar os filhos pequenos, Márcio e Pedro, de dentro do campo – os guris com quatro e cinco anos insistiam em participar do jogo, correndo atrás da bola junto com o bando de veteranos. E a corneta da torcida funcionando a mil à beira do alambrado.

- Estes teus parentes não jogam nada. Tá esperando o que para substituir?

O chute solitário do Luiz Vicente me autorizou a tentar substituí-lo. Era o clamor da torcida e, afinal, ele ia sair em alta, com dignidade. Mas a reação dele me forçou a mudar de idéia.

- Não saio, não. Eu dei grana pro time e não vou sair

Mas o pior estava reservado para o final. Num ataque do adversário, a bola foi alçada para a área, subiu, descreveu uma trajetória em arco e começou a descer. Foi quando o Telmo, outro irmão e teoricamente zagueiro central, berrou para os companheiros:

- Pode deixar, que esta é comigo.

A maldita da pelota caiu exatamente onde estava o beque, na entrada da área, só que bateu na canela dele, quando fazia um movimento de meia puxeta. Com isso, a bola subiu novamente, desviou em direção ao gol numa trajetória caprichosa, encobriu o atarantado goleiro Chico e morreu nas redes. Foi um dos mais belos gols já marcados em toda a história da Praça Tamandaré. Um gol de placa, só que contra...

Ao final da desastrada e única experiência dissolvemos a equipe de veteranos. Não havia futuro para eles, a não ser como um Íbis varzeano. E o time da gurizada continuou sem grana, mas a salvo das gozações e de novos vexames.

(O histórico gol contra do Telmo correu o mundo nos relatos feitos pelo Luiz Vicente às pessoas que visitava nas suas viagens ao exterior. Só que o lance era descrito de forma ligeiramente exagerada e cruel para o infeliz zagueiro, qualificado como um autêntico perna- de- pau – que de fato era, mas, enfim, a gente precisa preservar no estrangeiro a imagem do país e dos conterrâneos, ainda mais em se tratando de um irmão. Ursada internacional do Luiz Vicente.)