*Publicado nesta data em Coletiva.net.
“Presidência da República é destino”. Atribuída a
Tancredo Neves, ele que foi atropelado pelo destino quando se preparava para
assumir a presidência, essa sentença pode se confirmar neste domingo, caso as
urnas consagrem Flávio Bolsonaro. Só
para recordar, quem escolheu o candidato para representar o bolsonarismo, vale
dizer uma boa parcela do campo da direita, foi o próprio Jair Bolsonaro,
impedido de concorrer porque perdeu os direitos políticos e amarga a prisão
domiciliar. E assim foi caroneado o governador de São Paulo, Tarcisio de
Freitas, que teria mais musculatura eleitoral para enfrentar Lula.
Há outros exemplos recentes de intervenção do destino
na eleição presidencial. É só lembrar a ascensão de Dilma Roussef à
presidência, em 2010. Até ser ungida por
Lula para concorrer a sua sucessão, apesar do nariz torcido de parte do PT,
dona Dilma não havia disputado sequer uma eleição para síndica. Mas ela estava
no lugar certo, na hora certa e tinha um padrinho de peso, que garantiu o aval
partidário e a empurrou para a vitória, apesar do estilo tosco e confuso,
somado à inexperiência eleitoral da candidata. E o adversário dela, José Serra,
que no cotejo de biografias estava num patamar superior, passará a
história como o potencial melhor presidente que o Brasil não teve. Foi o
destino interferindo no nosso futuro.
Foi assim também na ascensão de Michel Temer à
presidência, após o impeachment da mesma Dilma, reeleita em 2014, quando
superou Geraldo Alckmin, agora vice de Lula. No caso de Alckmin não é destino,
mas as voltas que o mundo da política dá.
Não tenho dúvidas que foi também o destino que conduziu o obscuro ex-governador
de Alagoas à presidência, na primeira eleição após a redemocratização. Havia
opções bem melhores naquela eleição: Brizola, Covas, Ulisses e mesmo Lula, mas
foi Collor, arrancando com 3% das intenções de votos, a quem os deuses
eleitorais sorriram. O resto da história é conhecido. Sem base política e
soterrado por denúncias de corrupção, Collor foi expurgado do Planalto. O
destino levou, então, o vice Itamar Franco à presidência. Por linhas tortas, o
destino acertou e Itamar legou-nos a estabilidade econômica que sustentou as
duas eleições de FHC. Mas sabe quem Itamar preferia para sucedê-lo? O gaúcho Antonio
Brito, que arrepiou e passou a bola para FHC, que estava no lugar certo, na
hora certa, etc, etc. (Com o Plano Real, Itamar elegeria até um poste, que,
convenhamos, não era o caso de FHC nem de Britto).
O caso mais emblemático foi o da definição do vice de Tancredo Neves,
ainda no período da escolha presidencial pelo Colégio Eleitoral. Tancredo
preferia o deputado gaúcho Nelson Marchezan, mas o escolhido foi José Sarney. É
que Marchezan decidiu manter a coerência ideológica e a fidelidade partidária,
não aceitando a indicação. O destino se intrometeu novamente, Tancredo morreu
antes de assumir e acabamos penando seis anos com Sarney.
Corta para 2018. Representante do minúsculo PSL (
ainda existe?), capitão reformado do Exército, deputado do baixo claro, Jair
Bolsonaro encarnou o perfil de candidato “contra tudo o que ai está”,
vitaminado pelo atentado que sofreu e uma eficaz campanha nas redes
sociais, superou pesos pesados tradicionais, como Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e
Marina Silva, mais o articulado Fernando Haddad no segundo turno.
Nesta eleição, para se confirmar a tese de Tancredo,
Flávio vai precisar que as mãos do destino interfiram a seu favor, sabendo que
os deuses eleitorais podem ser imprevisíveis, inconfiáveis e sem ideologia. Além
disso, neste período, mais do que nunca, vale aquele dito do bom mineiro
Magalhães Pinto: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha
de novo e ela já mudou”. Será que não é
o destino soprando as nuvens?