*Publicado nesta data em Coletiva.net
Descoberta a verdadeira razão pela qual o Trump quer anexar a
Groelândia. Nada a ver com os recursos minerais abundantes naquela ilha gelada ,
nem com as reservas de petróleo descobertas
nos anos 1990. A cobiça do presidente americano
igualmente não tem relação com questões estratégicas, como a instalação no
território de um ambicioso sistema de defesa conhecido como Domo de Ouro. A verdadeira razão é que Trump está magoadinho
por não ter recebido o Nobel da Paz (a
medalha entregue pela venezuelana Corina Machado não vale), conforme expressou
em mensagem ao primeiro-ministro da Noruega. “Considerando que seu país decidiu
não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido mais de 8 guerras, não
me sinto mais obrigado a pensar puramente na paz, embora ela sempre seja
predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados
Unidos da América”, escreveu textualmente Trump.
A que ponto chegamos! Uma grave questão geopolítica,
que pode ameaçar a paz mundial e coloca
em oposição inclusive parceiros históricos, passa a ser norteada por um
sentimento menor, o despeito do líder maior dos EUA.
A verdade é que Trump nem está sendo original nas
pretensões sobre a Groelândia e as disputas envolvendo a maior ilha da Terra.
Falando sério, talvez essas questões fiquem mais
claras para a maioria de nós, que estamos distantes do epicentro dos
acontecimentos, em duas produções cinematográficas, ambas lançadas em 2022.
A primeira é o filme “Contra o Gelo”, encontrável na
Netflix, baseado no livro “Dois Contra o Gelo”, que conta a história real de
dois dinamarqueses em uma expedição à Groelândia, para encontrar documentos de
cartografia e provar que o território pertencia integralmente à Dinamarca, no
que foram bem-sucedidos. O ano era 1909 e, à época, os Estados Unidos
reivindicavam o nordeste da ilha.
Convém lembrar que a Groelândia, habitada por povos
inuítes há mais de 5 mil anos, recebeu a presença de dinamarqueses a partir de
1721, marcando o início de um longo período colonial. Hoje, é uma região
autônoma do Reino da Dinamarca, status conquistado em 1979.
Sobre os interesses em disputa na Groelândia, outra
produção que vale conferir no Netflix é a quarta temporada da série Borgen, da
TV dinamarquesa, A personagem principal
é Birgitte Nyborg, líder partidária de centro-esquerda e primeira mulher a exercer
o cargo de primeiro-ministro da Dinamarca (coincidência: atualmente o cargo é
ocupado também por uma mulher, Mette Frederiksen, que guarda alguma semelhança
física com a atriz da série, Sidse Babett Knudsen). O título da série (Borgem:
O castelo) é uma referência ao termo utilizado para o Palácio de
Christiansborg, onde estão sediados os três poderes do sistema dinamarquês: o
Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal.
N\a quarta temporada, intitulada o Reino, o Poder e a
Glória, Birgitte atua como ministra das Relações Exteriores, e os capítulos
giram em torno das conexões dos chineses na região, de olho nos seus recursos
naturais e posição estratégica no Ártico.
Na realidade, o interesse declarado na Groelândia era novamente
dos norte-americanos. Em 2019, no seu
primeiro mandato na Casa Branca, Trump já sugeriu que os EUA
comprassem o território, como fizera com a aquisição do Alasca da Rússia em
1867. A proposta foi rejeitada pelo governo dinamarquês e pela Groenlândia, que
reafirmou sua autonomia. Como resposta, Trump chegou a cancelar uma visita
oficial ao país nórdico.
Quem sabe vem daí, dessa rejeição agudizada agora com a
preterição para o Nobel da Paz, a mágoa acumulada de Trump. Alguém precisa
dizer ao Trump que mágoa não combina com relações internacionais.