sexta-feira, 13 de março de 2026

Regabofe em Londres

*Publicado nesta data em Coletiva.net

O banqueiro descolado convidou a comitiva de autoridades para uma escapada a um dos mais exclusivos clubes de Londres, como só os clubes de Londres sabem ser.

A prévia do encontro foi na saída do evento em que participavam,  promovido pela Revista Urna.

- Vamos lá gente, é tudo por minha conta,- anunciou.

O legislador principal e o magistrado mais amigo foram os primeiros a aderir. Os outros representantes supremos, o senhor ministro e o líder da força policial estavam indecisos, mas foram convencidos pela promessa de que seria boca-livre da melhor qualidade.

- Hoje é por conta da FIFA,- insistiu, num gracejo, o banqueiro,

Antes de partirem ainda enviou uma mensagem à namorada número 1.

- Peleleca amada, tu não imaginas com quem vou tomar umas e outras. Com os capa-preta de Brasília!

Na saída, o banqueiro encostou no magistrado de apelido aumentativo e confidenciou:

- Segui sua orientação, excelência, e desconvidei o Açougueiro por temer constrangimento ao nosso ex-líder maior, que será o palestrante principal.

No clube exclusivo, em região nobre londrina, a comitiva foi encaminhada a um espaço reservado e logo todos se acomodaram nos elegantes sofás de couro.

O garçom, vestido a caráter, não tardou, deixando à disposição os puros cubanos para a fumaceira prazerosa depois dos drinques.

Cerimonioso, o serviçal sugeriu:

- Se as excelências me permitem, sugiro para degustação o exclusivo The Legitman, 12 anos e meio, especialidade da casa.

Antes de qualquer reação dos convivas, o banqueiro aceitou a sugestão.

- Good sugestion, vai este mesmo, - respondeu, misturando idiomas, sem que o garçom mexesse um musculo diante da manifestação de brasilidade.

A garrafa de design exclusivo, como tudo ali, chegou à mesa e as excelências foram servidas.

Houve exclamações de aprovação após o primeiro gole.

- Desce redondo!

- Esse dourado indica uma ótima procedência!

- E que garrafa charmosa! Vou perguntar se dá pra levar!

- Aí enche com Natu Nobilis e ninguém vai notar.

- Quem diria, nós aqui acompanhado de um 12 anos e meio!

- Tá tão bom, que acho que é um 25 anos!

- Vamos brindar a quê,- perguntou o banqueiro.

- Ao estado democrático de direito e o combate à corrupção, - sugeriu o magistrado de apelido aumentativo.

- Ao estado democrático de direito e o combate à corrupção! – brindaram em uníssimo.

Quando a conta chegou, de forma discreta como convêm a um clube tão exclusivo, todos os convivas fizeram menção de colaborar, buscando - sem pressa - carteiras que estavam difíceis de localizar nos bolsos dos casacos. Houve até quem justificasse que havia deixado a sua no cofre do hotel, por segurança.

- Nada disso, é tudo comigo,- determinou o banqueiro.

“ O estado democrático de direito, o combate à  corrupção e, especialmente nossa amizade, mão tem preço”.

Ato contínuo pagou em dólares os 640 mil  da degustação, encerrada com uma baforada mais, um último gole e um estalar da língua.

O banqueiro descolado e esperto sabia que a conta para os convidados viria depois.

(Qualquer semelhança desse relato com fatos e pessoas da vida real terá sido mera coincidência)

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