*Publicado nesta data em Coletiva.net
Parece haver uma relação direta de corruptos e
corruptores com os prazeres da cama e da mesa. O exemplo mais recente envolve o
caso do Banco Master e as redes tecidas pelo
seu capo Daniel Vorcaro com autoridades e personalidades de todos
os graus e matizes. Relações na base de benesses em forma de jantares em
restaurantes sofisticados, hospedagem em hotéis cinco estrelas ou mais, voos em
jatinhos pra lá e pra cá, degustação de uísque 12 anos em clube exclusivo e
oferta de acompanhantes para festas privadas. Ah, as festas naquela mansão em
Troncoso! Se aqueles lençóis falassem! O que diriam das ucranianas e russas importadas para noitadas
com a clientela selecionada?
Parece que estou ouvindo o Vorcaro, entre um frege e
outro, erguendo a taça de cristal e brindando com autêntico champagne francês:
- Chega de chinelagem!
Nas festas no litoral baiano a estratégia do banqueiro
brasileiro se assemelha à do americano Jeffrey Epstein, que reunia dignatários
e até realezas na sua propriedade nas caribenhas Ilhas Virgens Americanas (que
ironia neste nome!) para sessões de massagem e algo mais, com moças e meninas
recrutadas em diversos países, inclusive no Brasil. A diferença é que Voracaro
preferia para suas festas as modelos do leste europeu e, pelo que se sabe,
todas maiores de idade (a preferência por estrangeiras era para que não
identificassem seus clientes, especialmente em festas em que compareciam
autoridades). No caso das festas do brasileiro e do americano, o objetivo era o mesmo: acesso ao poder, se
bem que o Jeffrey ia além com as contratadas.
Falando sem rodeios, o sexo é uma força poderosa,
sobretudo se for usado para fins específicos, como chegar aos poderosos e comprometê-los para maracutaias futuras.
Mas a gastronomia não fica atrás em poderio para
convencimentos, embora, digamos menos invasiva e comprometedora. Ou seja, nem
sempre é para promover malfeitos, a popular corrupção. São até aceitáveis cafés
da manhã, almoços e jantares que reúnem lideranças políticas quando alguma
decisão importante precisa de adesões, principalmente se é o executivo
cortejando os legisladores ou o judiciário. A harmonia entre os poderes fica
mais harmônica em torno de uma mesa.
Mais antigamente, em Brasília, esses conchavos
aconteciam em restaurantes que reuniram a fina flor do PIB político nacional,
como o Piantella, palco de muitos acordos, eis que era frequentado pelo pessoal
da oposição e da situação. Era lá que, sob o comando de Ulysses Guimarães, se
reunia o Clube do Poire, nome de um digestivo à base de pera, muito apreciado
pelo deputado e sua entourage.
Depois houve o desvirtuamento para encontros eróticos e
negociais. Vale lembrar a mansão em Brasília, onde o ex-ministro da Fazenda, Antônio
Palocci, desfrutava dos prazeres mundanos da cama e da mesa, enquanto negociava
propinas, não necessariamente nessa ordem. O local ficou conhecido como a República de Ribeirão
Preto, cidade que teve Palocci como prefeito. No episódio, destacaram-se dois
personagens: o caseiro Francenildo Costa, que denunciou as ações nada
republicanas de Palocci e sua turma e a “promotora de eventos” Jeany Mary Corner, responsável
pela contratação das garotas para os festerês na casa.
Nos últimos anos, passamos pelo Mensalão, o Petrolão,
a Lava Jato, sem contar outros episódios de menor repercussão, todos certamente
regados com boa gastronomia, e quando a gente pensa que agora deu, não vai ter mais
para essa canalhada, surge o estado da arte de todas as safadezas: o caso do
Banco Master.
De fato, o Brasil não é para amadores, mas sempre
existe aquela expectativa de que, pelo desta vez, a sacanagem não termine em
pizza. Se bem que pizza não seria a
pedida mais apropriada para os sofisticados jantares comemorativos, se
corruptos e corruptores escaparem incólumes mais uma vez.
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