sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Debates x Sabatinas

*Publicado nesta data em Coletiva.net

Os debates eleitorais  estão perdendo espaço para as entrevistas individuais com os candidatos, as sabatinas. As candidaturas firmaram convicção que tem mais a perder do que a ganhar nos debates, especialmente quando estão ponteando nas pesquisas e viram o alvo preferencial dos outros candidatos.  Em caso de segundo turno, aí os finalistas vão para o enfrentamento, pau a pau, porque um mau desempenho nos debates pode representar a derrota eleitoral e o não comparecimento recebe a pecha de “fujão”.

O formato engessado dos debates, mesmo que a Globo tente algumas inovações, exige uma preparação especial.

Funciona assim:  os adversários conhecem as fragilidades um do outro e vão explorá-las ao extremo para descredibilizar o outro lado. .  É preciso ter todas as respostas prontas, ser assertivo nas afirmações, ao mesmo tempo em que na sua vez de questionar, o mínimo que se espera é que contra-ataque com firmeza, forçando o erro do adversário. É muito desgaste de parte a parte.  Entre um e outro embate, os candidatos tentam vender seu peixe, falando de seus programas de governo, que muitas vezes não passam de peças de ficção.

Nas sabatinas  o clima é outro, menos tenso e até sobra tempo para tratar de projetos futuros e assumir compromissos com o eleitorado. Esse cenário, entretanto, não vale para o programa Entrevista com o Candidato que a Globo apresentou na semana passada com os seis candidatos mais bem avaliados na pesquisa Quaest. Para não ser acusada de oficialista, a Globo partiu para o ataque, selecionando uma questão de desgaste para cada candidato – só para exemplificar: as relações de Lulinha  com o INSS para Lula, o “patrocínio” do Banco Master para o filme sobre Bolsonaro pai, no caso do Bolsonaro filho – e sobrou até para o escritor dos livros de autoajuda Augusto Cury, que fechou a série de sabatinas e teve que se explicar sobre a viabilidade de suas propostas.

Com isso, a Globo conseguiu desagradar a todos, mas principalmente lulistas e bolsonaristas no tribunal das redes sociais. Nas bolhas de cada um, os entrevistadores Cézar Tralli e Renata Vasconcellos foram parciais e agressivos com seu candidato que, na avaliação da militância., saiu-se vencedor no embate. Na verdade, Lula foi desmascarado quando afirmou desconhecer a “pilantra” (termo que ele mesmo usou) Roberta Luchsinger. e Flávio Bolsonaro continua devendo esclarecimentos sobree a aplicação do recurso do banco do Vorcaro para filme Dark Horse.

 A rigor, só Ronaldo Caiado conseguiu passar pela sabatina sem grande desgaste porque adotou uma estratégia que Brizola usava com maestria: quando a pergunta não interessava respondia sobre outra coisa, desnorteando os entrevistadores.

Os criticados Tralli e Renata ficaram reféns  do formato das sabatinas da Globo com presidenciáveis desde o tempo em que o espaço fazia parte do Jornal Nacional, a partir de 2014, na gestão Willian Bonner. Os entrevistadores sempre pesaram a mão contra os entrevistados e agora não poderia ser diferente.  A diferença talvez esteja na estratégia adotada para os interrogatórios atuais, com  Renata apresentando as perguntas mais incisivas, enquanto Tralli fazia cara de paisagem e abusava das formalidades. Assim a produção do programa acreditava que ficava mais difícil ao candidato ser desrespeitoso e agressivo com a entrevistadora, podendo ser enquadrado como misoginia ou um desses termos modernosos,  tipo “gaslighting” quando a informação feminina é distorcida ou manipulada.

O certo é que Tralli e Renata não vão para o segundo turno da eleição. A Globo já anunciou que Renata Lo Prete, âncora do Jornal da Globo, será a entrevistadora das sabatinas com os presidenciáveis, em caso de segundo turno.  O anuncio foi feito antes mesmo das entrevistas conduzidas – e criticadas – de Tralli e Renata, mas a substituição  sempre vai passar a ideia de que foram mal sucedidos na empreitada, quando, na realidade, apenas seguiram a risca o roteiro traçado pelo jornalismo da Globo desde 2014.