sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Duas faces da mesma moeda

*Publicado nesta data em Coletiva.net

Em tempos de internet tudo o que foi declarado pode ser resgatado e usado contra o autor.  Não existe mais privacidade. Tudo fica ao alcance de um simples Ctrl.

Agora mesmo, quando empresas e influencers que seriam identificados com a esquerda estão ameaçados de boicote, no terceiro turno da eleição, a merecer veementes protestos e condenações, foi resgatada uma declaração do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, após a disputa presidencial de 2022, vencida por Lula. “No Brasil, em função do engajamento de algumas empresas com o governo extremista que foi derrotado, muita gente deixou de consumir os produtos dessas empresas. Eu sou um que não consumo sem prestar atenção de quem eu tô adquirindo o produto”, falou Haddad.

Como a comprovar que as eleições no Basil tem colocado frente a frente duas faces da mesma moeda, uma rápida pesquisa na Internet revela várias postagens com títulos quase iguais, mas com personagens distintos, tipo “Falas polêmicas de Lula para  relembrar”, ou “Relembre as frases polêmicas de Bolsonaro”.

Aparece de tudo nessas pesquisas e o termo polêmicas, na verdade, ameniza frases carregadas de  preconceitos ou, no mínimo, infelizes. O falastrão Lula abre a série com a “brincadeira” sobre Pelotas  " cidade polo, exportador de veados...”, quando foi gravar para a campanha à prefeito da cidade. Depois chamou as feministas do PT de ‘mulheres do grelo duro’, sem contar  a declaração de que “se o cara é corinthiano, tudo bem”, ao comentar o aumento da violência contra as mulheres depois de jogos,

Bolsonaro, sem freio nas falas, por sua vez, respondeu assim ao questionamento de como reagiria tendo um filho gay: “Para mim é a morte. Digo mais: prefiro que morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo” . E tem o episódio com a deputada Maria do Rosário, nos corredores da Câmara, quando sentenciou : “Eu jamais ia estuprar você porque você não merece”.

Vão para conta das frases infelizes ou de inversão de conceitos as afirmações de Lula de que o Brasil seria um dos países mais respeitados no “crime organizado” quando pretenderia falar sobre o combate a ele, ou então que os traficantes seriam vítimas dos usuários de drogas. Já Bolsonaro foi direto e incisivo ao defender, em várias ocasiões, mais do que a tortura no país. “O erro da ditadura foi torturar e não matar”, disse, literalmente.

Teriam mais e mais exemplos, incluindo de Flávio Bolsonaro que penou na campanha eleitoral, quando os programas de Lula resgataram um pronunciamento do adversário defendendo as milicias. “Não se pode estigmatizar as milicias”, foi a frase inconveniente.

A verdade é que não tem mocinho no andar de cima. E não adianta tentar remover o que foi dito. Fica tudo nas nuvens, o que me leva a parafrasear Saint-Exupéry: És eternamente responsável pelo que declaras.

 

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