* Publicado nesta data em Coletiva.net.
Confesso: sou um invejoso nato. Invejo, por exemplo,
os afamados palestrantes que inspiram plateias por todo o país. Queria ter a
bagagem cultural de um Pondé, de um Karnal, a facilidade de se expressar de um
Cortella ou de um Clóvis de Barros, a compreensão dos fenômenos da neurociência
de um Miguel Nicolelis, e da origem do universo e da vida de um Marcelo Gleiser,
e mais a presença cênica e boas histórias para ilustrar, como todos eles.
Se tivesse um
pingo do talento deles e pelo menos uma
tese inovadora para defender
sairia também a palestrar, a conceder entrevistas e participar de programas de
grande audiência para opinar sobre a minha especialidade e até sobre o que
tivesse pouco domínio, mas me imporia e convenceria com voz firme e gestos
estudados.
Entretanto, o que me falta em atributos, me sobra em
inveja,
Igualmente, invejo os cozinheiros televisivos ou aqueles
que as redes sociais me apresentam para humilhar quem, como eu, mal consegue
fritar um ovo. A facilidade com que manejam panelas, frigideiras e caçarolas,
preparando pratos que dão água na boca só de olhar. E como sabem o tempero
certo e na medida para cada um dos manjares! Agora tenho sido provocado também
por churrasqueiros raiz, que dominam o fogo e as carnes, e servem tudo no
ponto, enquanto eu me limito a oferecer uma costela no espeto e salsichão
que, pelo menos, não decepcionam.
Morro de inveja, ainda, dos que expõe com naturalidade
e sem muito esforço suas ideias em forma
de letras, em crônicas e artigos, discorrendo sobre assuntos complexos com leveza,
mas sem perder a profundidade dos temas. Onde essa gente busca inspiração para
sua presença diária nas páginas ou nos programas de rádio e TV? Quero a
receita! Preciso confessar minha inveja no caso porque sofro pelo menos
uma vez por semana o parto de uma coluna
aqui em Coletiva,net. Minha
vingança é não revelar os nomes dos invejados,
Inveja igual ou
até maior tenho nutrido por aqueles nerds que conhecem e usam todas as funções
dos celulares e dos computadores, enquanto eu confinei meus conhecimentos apenas
em receber e responder ligações, receber
e passar mensagens, tirar retratos e
acessar alguns apps.
O que me consola é que pode haver algum vivente que inveje
uma ou outra de minhas exposições públicas. Se existe, por favor, manifeste-se logo e
venha melhorar o astral deste despossuído de talentos.
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