Que que eu tinha que escrever que só temia a Holanda nesta Copa? Não deu outra: fomos solenemente encaçapados. Adeus, hexa. Agora o País inteiro vai se dedicar a outro esporte preferido dos brasileiros: apontar culpados pela eliminação. Foi o mau humor do Dunga que contagiou a seleção? Foi o destempero do Felipe Melo? Foi o pífio desempenho do Kaká? Ou foi a afonia do agourento Galvão Bueno que deu azar?
Neste momento, pelo menos 180 milhões de brasileiros discutem a questão. E certamente existem pelo menos 180 milhões de teses, vale dizer, 180 milhões de culpados. No local onde assisti ao jogo, meus parceiros culparam uma manta amarela que ganhei de brinde e usei pela primeira vez. Quase fui linchado por causa da inocente mantinha, quando na verdade, o meu sentimento foi de que o azar emanou das pipocas e amendoins, acepipes que substituíram o pão de queijo da vitoriosa jornada contra o Chile.
Humildemente me atrevo a teorizar que no jogo contra a Holanda o vilão brasileiro foi o condicionamento. O time estava muito condicionado à vitória, aos escores de vantagem e foi só o adversário equilibrar o jogo com aquele gol espírita, que a nossa seleção se desestabilizou. Não havia experiência anterior na Copa de enfrentamento de igual para igual. E o Brasil sucumbiu mais por seu mérito – a fixação em estar em vantagem – do que pelos seus defeitos. É o meu pitaco, minha contribuição ao grande debate nacional do momento. A ironia em tudo isso é que o setor mais qualificado e elogiado do time brasileiro, a defesa, falhou nos dois gols dos holandeses. Julio César, Lúcio e Juan, especialmente os três, não mereciam esse triste desfecho.
A verdade é que investimos uma enorme energia na torcida pela seleção, mesmo que o time de Dunga não fosse de entusiasmar. Agora precisamos administrar a ressaca. Ou como diria o mestre Drummond, na memorável crônica "Perder, Ganhar, Viver", após a eliminação brasileira na Copa de 82, em circunstâncias muito semelhantes: “A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos. E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?”
Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 2 de julho de 2010
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Receita de Ano Novo
De todas as mensagens de boas festas que recebi - e foram muitas - as que mais me tocaram foram as que fizeram referência a este belo texto do mestre Carlos Drummond de Andrade:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Assinar:
Postagens (Atom)