*Publicado nesta data em Coletiva.net.
As campanhas eleitorais se valem de estratégias
racionais, quando tratam de suas propostas, e emocionais quando apelam, por
exemplo, para o medo como instrumento de convencimento do eleitor e/ou de
desqualificação do adversário.
A campanha de Lula já assumiu que adotou a campanha do
medo neste segundo turno. A ideia, que aparece no horário político gratuito e
nas inserções avulsas, é mostrar ao eleitor o que ele pode perder em termos de
conquistas sociais e econômicas, caso Flávio seja eleito. Seria a repetição da estratégia adotada por
Dilma Roussef contra Marina Silva, em 2014, o que acabou virando a tendência de
votos para a candidata petista em busca da reeleição. É o mesmo resultado, por
meio da campanha do medo, que Lula espera alcançar agora, no enfrentamento com
o representante bolsonarista. Vale lembrar que em 2014 uma das peças produzidas
pela equipe do marqueteiro João Santana associava a retirada de comida da mesa
dos brasileiros à proposta de autonomia financeira do Banco Central, defendida
por Marina Silva. Em outra peça, Marina, por ser evangélica, era apresentada
como uma ameaça ao tradicional Cirio de Nazaré, numa prévia de envolvimento das
questões religiosas na campanha política, como ocorreu agora com Nossa Senhora Aparecida, que poderia perder a
condição de Padroeira do Brasil com a eleição de Flávio.
Como não tem mocinho nesse processo, o ex-presidente Jair Bolsonaro explorou repetidamente durante a campanha de
2022 o temor de que uma vitória de Lula
levasse o Brasil a “virar uma Venezuela”, uma referência ao colapso econômico e
político do país vizinho. Lula conseguiu superar esse medo e garantiu a
vitória, se bem que por pequena margem.
A campanha que apela para o medo obriga o adversário a
ser reativo e contra-atacar, às vezes, no mesmo tom, como rem feito os
programas de Flávio ao tratar da questão do combate a criminalidade, exibindo
imagens fortes de violência nas ruas e sugerindo que a continuidade de Lula
manteria essas situações.
A verdade é que essa estratégia não é coisa recente,
nem exclusividade do processo eleitoral brasileiro. Em 2002, por exemplo,
a ex-namoradinha do Brasil, Regina
Duarte, gravou uma mensagem para a propaganda de José Serra, alertando para o
perigo de Lula chegar ao poder. “Eu tenho medo”, era a síntese do
pronunciamento que, pelo jeito, não
surtiu o efeito desejado, porque Lula acabou vitorioso.
Em 1964, nos Estados Unidos, um comercial na TV
mostra uma menina colhendo as pétalas de uma margarida,
contando até chegar em nove, enquanto na sequência uma voz masculina grave
começa a contagem regressiva de lançamento de uma explosão nuclear. A mesma voz
adverte os espectadores de que o que está em jogo é importante demais para eles
ficarem em casa e lança o convite para que votem em Lyndon Johnson. Diante dos
protestos do adversário, o comercial, que retratava o adversário Barry
Goldwater como um extremista capaz de usar armas nucleares, não foi mais exibido, mas o estrago estava
feito e Johnson foi reeleito por ampla maioria. Especialistas em campanhas
políticas consideram esse comercial um exemplo emblemático do uso do medo na
comunicação política.
Os especialistas no marketing político explicam que o
medo funciona na cabeça do eleitor, mas deve vir acompanhado de uma solução
proposta por quem adota essa estratégia e que se apresenta como um
“salvador”. Caso contrário, o público
tende a rejeitar a mensagem. O medo age para que o eleitor prefira manter o que
já foi conquistado a arriscar-se em uma aventura sem saber o que terá pela
frente. Ocorre com frequência de a propagação do medo acabar derivando para fakes
news, o que valeria uma análise a ´parte.
A ver no dia 25 se a estratégia adotada pela equipe de
Lula, certamente com o aval do candidato, funcionou ou não. Ou se as reações de
Flávio surtiram o efeito desejado.
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