Dois amigos da veteranice ativa não se cansam de falar maravilhas das coxas de uma professora do Julinho, a venerável escola pública que já viveu dias melhores. Os dois safos, lá pelos idos dos anos 1950, aprontavam em aula mais do que apendiam. Pelo menos é o que deduzo das postagens frequentes nas redes sociais, em que rememoram aqueles tempos descompromissados, quando as longas e bem torneadas coxas da jovem professora, como uma Ana Hickmann vintage, chamavam mais atenção do que as matérias no quadro negro.
Por razões óbvias, porque
todos os personagens estão bem vivos e rememorativos, os nomes da docente e dos
discentes serão omitidos.
Com a mesma frequência
com que agora fazem citações saudosas à anatomia da mestres, os rapazes deixavam cair canetas (aquelas de
sugar tintas nos tinteiros) no chão, às vezes um lápis mal apontado, ou
aqueles cadernos cheios de orelhas, só
pelos segundos de prazer de observar as coxas da professora por um novo ângulo,
sempre na esperança de ter a visão de um pouco mais adiante. Ambos, na
maioridade da adolescência, devem ter feito muitas homenagens, fora do ambiente
escolar, é claro, quando imaginavam percorrer aquela região e serem
correspondidos nas suas libidinagens, pelo menos em fantasia.
Hoje eles chegam a
afirmar que a visão das belas coxas tinha potencial para funcionar como “cura
gay”, o que não acontecia na prática porque a terminologia na época era outra.
Os gays de então eram conhecidos como “frescos” ou “maricas” e, diferente de
hoje, não publicizavam a decisão quando saiam do armário. Eram discretos e acho
que não queriam se beneficiar da “cura maricas”, que seria, digamos, a o termo
mais adequado para aqueles anos. Essas divagações rasteiras correm por minha
conta, porque os dois veteranos ainda estão confinados nas lembranças da
professora e suas adoráveis coxas.
Só abrem exceção para recordar
novos momentos de interação alunos-professoras, como a vez em que outra mestra fisicamente
cultuada, “num exame oral pegou minhas duas mãos para mostrar alguma coisa da História
Natural que esqueci na hora. Que mãos!”, relatou e exclamou o mais desavergonhado
dos dois. Para não ficar atrás, o outro safado contou que, sem querer (será
mesmo?) acabou tocando nas pernas da responsável por uma prova oral de Francês,
ao fazer um gesto mais largo. A verdade é que nos dois casos, chego à conclusão
de que os jovens julianos de então se contentavam com pouco, um toque aqui, um
gesto ali e nada mais. Sei que vai me custar caro ter feito essas revelações,
especialmente sobre a quase inocente interatividade da qual se vangloriam. Minha
reputação será corroída nas redes sociais dos dois. Se bem que não citei nomes,
por isso talvez não passem recibo me retaliando.
Sei também que são
histórias nada edificantes, mas não vou brigar com as melhores memórias dos
meus iguais. Magnânimo que sou, até vou sugerir que acrescentem um final
instigante aos episódios de miradas nas coxas da professora: um reencontro
entre o mais olheiro dos alunos e a dona dos apreciados membros. Teria ocorrido,
passados muitos anos desde os tempos do Julinho, numa movimentada esquina da
zona Sul da cidade.
O tempo fora cruel com a
deusa das belas coxas e o nosso amigo agradeceu por não ter sido reconhecido, primeiro
porque também já não era o garoto cheio de energia, longe disso, e porque não
queria apagar da memória aqueles membros responsáveis por tantas homenagens. Só
lhe ocorreu dizer baixinho:
- Mas que par de coxas
tinha essa professora!
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