*Publicado nesta data em Coletiva.net
No Brasil, ao invés de promovermos
uma reforma política pra valer, aperfeiçoa-se
tão somente o processo de votação. Mesmo que os bolsonaristas e o ditador
venezuelano lancem desconfianças sobre a urna eletrônica, o sistema brasileiro
é moderno, funciona e é confiável. Os mais antigos vão lembrar das maracutaias
dos tempos da votação em cédula de papel. Muito voto em branco foi preenchido
por escrutinadores desonestos à serviço
de determinada candidatura e, na sequência, os mapas de totalização eram fraudados. Compra de votos, então, era comum, se bem que essa
prática voltou a ser denunciada aqui no RS e em outros estados, na atual
eleição municipal, inclusive com a participação do crime organizado.
Em passado não muito
distante, o caso mais notório de tentativa de trapacear no processo eleitoral
envolveu Leonel Brizola na disputa para o governo do Rio em 1982. O episódio
ficou conhecido como Caso Proconsult, a empresa contratada pelo TRE para a
totalização dos votos, depois acusada de manipular os resultados para favorecer
o candidato do então PDS, Moreira Franco. Brizola botou a boca no trombone e
com isso conseguiu sustar a fraude e garantir sua eleição, naquele que foi o
primeiro pleito direto para escolher governadores, já nos estertores da
ditadura militar. Detalhe importante: o voto à época era em cédula de papel.
Hoje, uma grande e
custosa estrutura da Justiça Eleitoral (orçamento de R$ 11,8 bilhões em 2024) atua
para garantir a lisura dos pleitos, impondo uma série de vedações às
candidaturas. Mesmo assim, as
manipulações eleitorais não foram
totalmente eliminadas e surgem de outras formas, além das fake news e uso da IA.
Os fundos partidário e eleitoral (R$ 6 bilhões
no total, ou mais de 22 mil Minha Casa, Minha Vida) garantem o financiamento
das campanhas, ou seja, o dinheiro público, o nosso dinheiro, fazem a festa dos
partidos. A legislação sobre a aplicação do fundos é clara, mas quem não
cumpriu as regras pode ganhar perdão e,
assim, a fraude eleitoral, pelo uso irregular dos recursos, é oficializada.
Com isso, aumenta ainda
mais o descrédito na política e nos políticos, o que pode ser apontado como a
causa de duas anomalias presentes na atual eleição: a alta abstenção e o surgimento
de figuras como Pablo Marçal, fazendo o tipo “contra tudo isso que está aí’.
Evidente que existem
outras motivações para os dois casos, mas deixo para a colega de página, a
cientista social Elis Radmann, do Instituto
Pesquisas de Opinião, avaliar as incidências com muito mais propriedade do que este
bissexto analista.
O que me desconsola, por um lado, é que Porto
Alegre, pela segunda eleição consecutiva, seja a capital campeoníssima em não
comparecimento dos eleitores e me conforta, por outro lado, que não tenha
surgido aqui nenhum clone do Pablo Marçal buscando espaço na campanha majoritária.
Porém, pouco ou nada a comemorar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário