sexta-feira, 15 de maio de 2026

Sociedade do medo

 *Publicado nesta data em Coletiva.net

O medo é uma arma poderosa para a mobilização das pessoas e coesão dos povos. O regime nazista chegou ao estado da arte na utilização desse sentimento como estratégia para manipular o povo alemão e fazê-lo aceitar a guerra e outras atrocidades que viria cometer.  

Hermann Göring , considerado o braço direito de Hitler e um dos principais arquitetos do Terceiro Reich, revelou em Nuremberg, onde aguardava julgamento, que o que leva uma nação ao conflito é a capacidade dos seus líderes em convencer a população de que existe uma ameaça externa iminente. “A verdadeira ameaça é quem lidera o povo”, resumiu.  E mais: os pacifistas devem ser acusados de traidores da pátria. O medo bem utilizado funciona nesse sentido. É o poder manipulando o medo.

A perturbadora reflexão ocorreu durante conversa privada com o psicólogo americano Gustave Gilbert, personificado pelo oscarizado Rami Malek no filme Nuremberg, que está em exibição nos cinemas.

Estamos no Brasil, no século 21, mas essa questão continua importante como sempre e o que se impõe no contexto de um ano eleitoral é distinguir como o medo vai aparecer na campanha deste ano? Lula já foi vítima dele em campanhas anteriores, basta lembrar o factoide da vinculação dele ao sequestro de Abílio Diniz, na véspera da eleição de 1989 e mais recentemente, o episódio de Regina Duarte, em 2002,  afirmando textualmente que  “eu tenho medo de uma possível vitória de Lula” 

A campanha de Bolsonaro usou com eficiência o fator medo na campanha contra Haddad, mas a esquerda também apela, ao acenar com a volta da fome, o fim de direitos sociais,  os riscos à democracia e a soberania ameaçada, se a direita assumir o poder, entre outros perigos que o bolsonarismo representaria. A desinformação ou a informação deformada realimentam o medo. A verdade é que não tem mocinho neste processo.

Pesquisa do DataFolha,. divulgada em março, há sete meses das eleições, revela que a insegurança, o medo do futuro e o desanimo predominam entre as emoções quando os eleitores falam sobre a situação atual do país. Vale registrar que nem  se está tratando do medo da violência nossa de cada dia, que merece outra abordagem e, finalmente, está  mobilizando o governo federal com um pacote contra o crime organizado.

Agregue-se “estrutural” – como está na moda – ao medo e teremos uma ideia mais clara do ambiente neste ano eleitoral. O medo estrutural decorre de um ambiente de insegurança permanente, quase naturalizado, permeando instituições e relações sociais. Influenciam comportamentos com cautela excessiva ou paralisia. Não é somente individual, mas um sistema onde os agentes temem uns aos outros, retroalimentando desconfiança e inação. No Brasil, ocorre uma espécie de “medo cruzado” entre os poderes (Supremo, Congresso, Executivo), onde desconfianças mútuas podem limitar ações necessárias ou gerar exageros (definições by I.A.)

O cientista social Fernando Schuller em recente coluna, aponta o dedo justamente para o andar de cima, especialmente o STF, ao agir severamente contra críticas como se fossem ataques ao Judiciário. O resultado seria “a criação de uma sociedade do medo”, que “irradia um efeito inibidor”..

Todos esses componentes estarão presentes no pleito presidencial que se avizinha e que se projeta como tenso, intenso, conflituoso, como tem ocorrido ou até mais. Parafraseado Gôring, será que as ameaças vão liderar a decisão do povo? Acredito que a questão vai ser apenas em que medida isso vai acontecer.

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