sexta-feira, 17 de abril de 2026

Os dois tempos do processo eleitoral

* Publicado nesta data em Coletiva.net

O DutraVoto, meu instituto pessoal de análises políticas, divide o processo eleitoral em duas etapas. Esclareço que a formulação não tem qualquer valor científico, mas é resultado de boas e más experiências com candidaturas majoritárias.

Assim, a primeira etapa é a campanha política, chamada de pré-campanha, que precede a liberação da propaganda eleitoral. É a fase de amarrar as coligações para garantir tempo de propaganda, negacear e negociar apoios, definir os grupos de trabalho, a equipe de marketing e as estratégias, buscar financiadores, ou seja, preparar o terreno para a batalha eleitoral que se avizinha. Tempo de troca-troca de partidos, de convenções partidárias e de mobilização das bases.

Nessa etapa os comitês consolidam o manancial de fragilidades dos principais adversários, aqueles episódios que vão ser apresentados no horário político e viralizados na internet, podendo desestabilizar uma candidatura, dependendo da gravidade e do grau de envolvimento do visado.  Tudo o que foi dito, as parcerias inconvenientes, as ações e decisões que deixam margem a dúvidas, promessas não cumpridas, questões jurídicas pendentes ou transitadas em julgado, e toda a vida pessoal do candidato é vasculhada e fica à disposição dos marqueteiros para serem usadas devida ou indevidamente no momento oportuno. Adivinhem o que estão fazendo as equipes de Lula e Flávio Bolsonaro neste momento?

Depois vem a fase decisiva, a campanha eleitoral propriamente dita, na internet e nas ruas – neste ano começa em 16 de agosto nas ruas e na internet e, em 28 de agosto, no rádio e na TV.   Aqui começa pra valer a operação das equipes, contratadas no mínimo, um mês antes. As militâncias voluntária e remunerada vão às ruas para dar visibilidade ao candidato, que se prepara para muitos jantares a base de galeto, salchipão, discurseiras e promessas, que às vezes não se cumprirão.   O plano de governo, mera ficção em muitos casos, já estará finalizado.

As pesquisas balizam a campanha. Se os números são favoráveis, não faltam recursos, nem militância e novos apoios, o entusiasmo carrega a candidatura, enquanto os adversários ficam mais agressivos. Porém, se os números não ajudarem, a campanha vira um eletrocardiograma e é preciso cuidado para não acabar num salve-se quem puder,  a empolgação se vai, a equipe da campanha começa a sofrer pressões, isso quando não é trocada.

Também  ocorre com frequência a alteração de todo o planejamento prévio, porque os adversários pesaram a mão nos ataques. Então, a campanha se move por um lado pela necessidade de mostrar propostas e, por outro, por defesas contra os oponentes e os respectivos contra-ataques. É adrenalina pura.

A regra básica é:  a candidatura que não se preparou bem na campanha política, tem mais chances de enfrentar dificuldades na campanha eleitoral. Um erro de avaliação pode custar quatro anos longe do poder.

Ao resgatar esse quase tutorial de eleições, recordo que já vivi as duas fases em distintas campanhas, com vitórias e derrotas, e não sinto nenhuma saudade daqueles tempos. Hoje meu único papel no processo eleitoral é o mais importante: o do eleitor, (que conhece as fases do processo e muitos “interésses” que não são confessados pelas candidaturas)

*Valeu, Martinelli.

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