segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

A mágoa do Trump

 *Publicado nesta data em Coletiva.net

Descoberta a verdadeira  razão pela qual o Trump quer anexar a Groelândia. Nada a ver com os recursos minerais abundantes naquela ilha gelada ,  nem com as reservas de petróleo descobertas nos anos 1990.  A cobiça do presidente americano igualmente não tem relação com questões estratégicas, como a instalação no território de um ambicioso sistema de defesa conhecido como Domo de Ouro.  A verdadeira razão é que Trump está magoadinho  por não ter recebido o Nobel da Paz (a medalha entregue pela venezuelana Corina Machado não vale), conforme expressou em mensagem ao primeiro-ministro da Noruega. “Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido mais de 8 guerras, não me sinto mais obrigado a pensar puramente na paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América”, escreveu textualmente Trump.

A que ponto chegamos! Uma grave questão geopolítica, que pode ameaçar a paz mundial e  coloca em oposição inclusive parceiros históricos, passa a ser norteada por um sentimento menor, o despeito do líder maior dos EUA.

A verdade é que Trump nem está sendo original nas pretensões sobre a Groelândia e as disputas envolvendo a maior ilha da Terra.

Falando sério, talvez essas questões fiquem mais claras para a maioria de nós, que estamos distantes do epicentro dos acontecimentos, em duas produções cinematográficas, ambas lançadas em 2022.

A primeira é o filme “Contra o Gelo”, encontrável na Netflix, baseado no livro “Dois Contra o Gelo”, que conta a história real de dois dinamarqueses em uma expedição à Groelândia, para encontrar documentos de cartografia e provar que o território pertencia integralmente à Dinamarca, no que foram bem-sucedidos. O ano era 1909 e, à época, os Estados Unidos reivindicavam o nordeste da ilha.

Convém lembrar que a Groelândia, habitada por povos inuítes há mais de 5 mil anos, recebeu a presença de dinamarqueses a partir de 1721, marcando o início de um longo período colonial. Hoje, é uma região autônoma do Reino da Dinamarca, status conquistado em 1979.

Sobre os interesses em disputa na Groelândia, outra produção que vale conferir no Netflix é a quarta temporada da série Borgen, da TV dinamarquesa, A  personagem principal é Birgitte Nyborg, líder partidária de centro-esquerda e primeira mulher a exercer o cargo de primeiro-ministro da Dinamarca (coincidência: atualmente o cargo é ocupado também por uma mulher, Mette Frederiksen, que guarda alguma semelhança física com a atriz da série, Sidse Babett Knudsen). O título da série (Borgem: O castelo) é uma referência ao termo utilizado para o Palácio de Christiansborg, onde estão sediados os três poderes do sistema dinamarquês: o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal.

N\a quarta temporada, intitulada o Reino, o Poder e a Glória, Birgitte atua como ministra das Relações Exteriores, e os capítulos giram em torno das conexões dos chineses na região, de olho nos seus recursos naturais e posição estratégica no Ártico.

Na realidade, o interesse declarado na Groelândia era novamente dos norte-americanos. Em  2019, no seu primeiro mandato na Casa Branca, Trump já  sugeriu que os EUA comprassem o território, como fizera com a aquisição do Alasca da Rússia em 1867. A proposta foi rejeitada pelo governo dinamarquês e pela Groenlândia, que reafirmou sua autonomia. Como resposta, Trump chegou a cancelar uma visita oficial ao país nórdico.

Quem sabe vem daí, dessa rejeição agudizada agora com a preterição para o Nobel da Paz, a mágoa acumulada de Trump. Alguém precisa dizer ao Trump que mágoa não combina com relações internacionais.

 

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