*Publicado nesta data em Coletiva.net
Desconfio de todas as matérias jornalísticas que trazem “especialista” no título. Parecem aquelas matérias da antiga Veja e ainda hoje usadas por alguns veículos. O viés da reportagem, normalmente desfavorável a alguém ou alguma instituição, está pronto, mas precisa ser validado por uma fonte considerada abalizada. o “especialista”. Se for da academia, melhor ainda.
A Rede Globo, na sua cruzada pelos valores e propostas que defende, tem abusado dessa estratégia, especialmente quando trata de temas econômicos ou científicos. O que se observa é um desfile de “este especialista”, ou o “renomado professor”, ou “o conceituado pesquisador” nos boletins dos repórteres e nas entrevistas ao vivo. A sucursal dos Estados Unidos certamente vai bater o recorde de participações de representantes das principais universidades americanas, alguns inclusive brasileiros já com leve sotaque do país. Isso porque partem do princípio de que a ninguém é dado o direito de desacreditar das opiniões de um luminar de centenárias instituições universitárias.
Por aqui, sobram espaços para os doutores tupiniquins quando o tema é mais regional e, pelo que tenho observado, há uma espécie de busca por professores de cursos superiores menos prestigiados, pode até ser do interiorzão se a matéria é sobre o agro. Entretanto, quando se trata do pessoal da USP, os repórteres parecem fazer uma espécie de reverência, que a maioria dos uspianos até merecem.
Em períodos eleitorais é inevitável a saliência dos cientistas políticos, superados em todos os períodos pelos especialistas em Segurança, ambos repletos de teses e soluções óbvias. Parecem as platitudes do César Trali, opinando após todas as matérias do Jornal Hoje.
O que tem de “chutador” entre esse pessoal! Lembro que na guerra do Golfo um expert em estratégia militar, recrutado pela Globo, chamava a atenção para a “temível Guarda Republicana” de Sadam Hussein, que sequer deu as caras e muito menos tiros diante da investida das tropas americanas. Mais recentemente, durante a pandemia, surgiram até especialistas em uso de máscaras, fora os contra e a favor da vacina ou da cloroquina. Foi quando se sobressaiu o falastrão reitor da Ufpel, o professor de Educação Física Pedro Hallal e seu estudo para avaliar a prevalência de infecção pela Covid 19. Ninguém entendia bem qual a utilidade da tal pesquisa, mas ela acabou servindo para embasar o plano de distanciamento controlado do governo do RS, além de garantir generosos espaços na mídia para o reitor, mais tarde cogitado para uma candidatura ao senado. Era o tempo do “fica em casa e a economia a gente vê depois”. Deu no que deu.
Na real, o “este especialista” consultado sempre tem a solução mais fabulosa e arrojada para os problemas, não importando se existem recursos e viabilidade para a execução de faraônicos projetos. Mas a ideia proposta passa a ser definitiva, inquestionável e ai de quem ouse pensar diferente. O nome desta postura chama-se desonestidade intelectual, pecado dos sectários e donos da verdade.
A responsabilidade primeira sobre esse processo, vale reprisar, não é dos tais consultores, mas de quem os contrata e aciona. A mídia parece envergonhada de assumir determinadas posições e busca respaldo na opinião dos doutores – e de ONGs, acrescente-se - para reforçar o que, na verdade, pretende passar. Em outros casos, procura dar um verniz erudito a determinados temas de forma a valorizá-los. E o que constatamos, na maioria das vezes, repito, é um festival de obviedades, o primado do achismo, nivelando-se aos piores debates esportivos. Nestes, pelo menos, permite-se o contraditório.