*Publicado nesta data em Coletiva.net
O que tem em comum Ronaldo Fenômeno, Didi dos Trapalhões e Regina Cazé? Conforme depoimentos de quem convive com essas celebridades, elas se comportam de um jeito simpático e amigável publicamente, mas longe dos holofotes assumem outro comportamento – são insuportáveis, pra dizer o mínimo, reproduzindo o que se ouve nos testemunhos.
Esses depoimentos, a maioria disponível em podcasts, comprovam o que canta Caetano Veloso em Vida Profana: “de perto, ninguém é normal”, ou, usando uma corruptela, longe das câmeras ninguém é normal. É bem verdade que falar mal dos famosos é um esporte nacional e aí entra mais gente na roda, como Antônio Fagundes, Galvão Bueno e até o falecido Ayrton Senna, com suas chatices ou relação conturbada com os fãs, com seus iguais e com assessores. Poderia enumerar muitos exemplos mais, incluindo lideranças políticas que só assumem o figurino de gente boa em período eleitoral. Porém, todos eles tem que saber que a regra é clara: quem tem exposição pública não pode se valer disso para destratar aquele que é obrigado a conviver com o famosinho.
A propósito, lembro que já escrevi sobre um confrade de minhas relações que costuma julgar as pessoas nas dimensões física e jurídica. A física diz respeito aos atributos pessoais - caráter, personalidade, atitudes – e a jurídica ao desempenho profissional – competência, entregas, relacionamento funcional, comprometimento. Assim, não é raro se referir a um conhecido no condicional:
- Na física é uma rica de uma pessoa, mas, na jurídica, um baita incompetente.
Também é recorrente a sentença inversa:
- Na jurídica é um grande profissional, mas, na física um péssimo caráter.
Nesta minha jornada septuagenária sou tentado a concordar com o confrade, eis que tenho convivido com gente de todas as espécies. Conheço perfis, especialmente entre as chamadas pessoas públicas, que induzem a grandes enganos com suas atitudes. Fina flor da meiguice para efeito externo, nas internas são verdadeiros déspotas. E parece haver uma relação direta entre a ascensão do sujeito e a incivilidade: quanto mais poderosos, mais autocráticos. Os piores são aqueles que recebem um carguinho e acham que são deuses.
- Dá-lhe o látego e conhecerás o tirano, - dizia, algo solene, um diretor de rádio que conheci no passado, ele mesmo um especialista em disseminar o terror entre os seus colaboradores.
O látego, para quem não sabe, é o chicote usado pelo verdugo para flagelar suas vítimas. As vítimas são todos aqueles obrigados a conviver com os opressores de plantão, porque o sujeito mal avaliado na jurídica, mas de boa índole, ainda passa, porém, o contrário não é verdade. Do jeito que vai, daqui a pouco seremos obrigados a imitar Diógenes, que saia as ruas na Grécia antiga carregando uma lamparina, alegando que estava a procurar um homem honesto e íntegro. Detalhe: o filosofo era conhecido como Diógenes, o Cínico, o que deve significar alguma coisa sobre o caráter dele.
Na verdade, Diógenes procurava a virtude de uma vida simples e natural, dessa simplicidade e espontaneidade de que são feitas as pessoas do bem, que prescindem do látego porque são integras na física e na jurídica. Se me pedirem nomes dos outros, nem com látego revelo.