quinta-feira, 16 de julho de 2015

Em tempo de crise

Lá pelo final dos anos 80 do século passado numa reunião de pauta do Jornalismo da Radio Band sugeri que fizéssemos uma série de reportagens sobre a crise da saúde no Rio Grande do Sul. Mal acabei de externar a ideia e fui aparteado por uma das editoras, a mais experiente:

- Pô, chefia, crise da saúde de novo?! Há mais de dez anos a gente não fala em outra coisa.

Fui obrigado a reconhecer que ela tinha razão. Passaram-se mais de 20 anos e a crise na saúde continua na ordem do dia, apesar dos investimentos sempre crescentes no  setor e de o SUS ter se consolidado desde então.  Até parece que  a crise da a saúde tomou vacina contra a solução dos seus recorrentes problemas.

Uso o exemplo da saúde para tergiversar sobre as crises em geral, as que assolam nosso país em todas as instâncias de governo e que contaminou o setor produtivo em geral. Desde que me conheço por gente ouço falar em crise e nos seus efeitos perversos sobre o cotidiano de cada um de nós.  Mesmo assim temos sobrevivido e ficamos à espera de uma nova crise, da volta por cima e dos altos e baixos que virão depois.

Só o que está mudando é que esse processo passou a ganhar uma abordagem diferenciada, de algumas crises para cá.  Agora,  a discurseira é em torno de uma equação, verdadeiro mantra, de que crise é igual a oportunidade.  Afamados palestrantes, inclusive, não se cansam de usar um argumento falacioso, afirmando que os caracteres que compõe a palavra  crise em chinês  (me poupem de reproduzi-los) representam  perigo e oportunidade. Essa versão já foi derrubada por credenciados filólogos da língua chinesa.  É uma percepção popular equivocada, esclarecem.

Ademais, vai explicar para o metalúrgico que perdeu o emprego que ele  não foi vítima da crise, mas que precisa acreditar na chegada de um tempo de oportunidades. Vai contar ao empresário que o consumo caiu, o juro está alto, falta capital de giro e grana para novos investimentos, mas que isso é sinônimo de oportunidade, não de crise. Vai explicar aos gregos que os alemães, ao cobrarem o que lhe devem,  estão sendo generosos, oferecendo um mundo de oportunidades e não agudizando a crise do país.

Crise igual a oportunidade, essa autoajuda motivacional de nada adianta quando fatores externos pressionam as vítimas da crise, detonam suas bases de apoio, suspendem suas receitas, negam crédito e acabam com as bem aventuranças futuras. Isso é vida real e não discurso artificioso.

Da mesa ao lado vem o questionamento: mas, e aí, qual a solução? Chamem os universitários porque  não me atrevo a tanto, apenas observo o cenário e fico bem quietinho no meu canto, esperando a onda passar. Garanto que sobreviverei a mais essa crise.