domingo, 16 de fevereiro de 2014

Mazelas da rede

O mundo está virado de cabeça pra baixo, mas uma das mais acaloradas discussões nas redes sociais diz respeito a um jovem ator da Globo, Caio Castro, que ousou dizer, em entrevista à Marília Gabriela, que não gosta de teatro e que só lê por obrigação.  Foi o suficiente para que os patrulheiros de plantão, muitos deles alojados na própria Rede Globo , ou seja, colegas de Caio Castro, bombardeassem o moço com todo o tipo de criticas, como se o que distinguisse as pessoas de bem das sem caráter fosse o gosto pelas artes cênicas e o hábito da leitura.

Assim sendo, começo a duvidar do meu caráter e da minha infinita e reconhecida vocação para praticar o bem, eis que a última peça de teatro a que assisti foi Medeia, dirigida pelo meu amigo Luciano Alabarse e algumas produções vanguardistas do Porto Alegre em Cena, que o mesmo Alabarse nos brindou.  Em relação a leitura, encarreirei cinco ou seis livros para começar – dos mais de 30 que repousam na minha cabeceira – mas não passei  dos primeiros capítulos, como já confessei envergonhado,  aqui mesmo. Virei, por isso, categoria sujo, bobo e malvado?
Insurjo-me contra essas desqualificações e desde já estou solidário com o galã global, não pelas bobagens que teria dito, mas pelo direito de dizê-las, uma vez que o único prejuízo que poderia causar é pessoal, ao reforçar o segmento que mais cresce no País,  o dos Sem Noção.  Na verdade, meu sentimento em relação ao Caio Castro é de pura inveja pelo personagem que desempenhava na novela Amor a Vida, com direito a tórridas cenas com aquele monumento de mulher, a Maria Casadevall e de quebra beliscava também a bela Carol Castro.  Tudo isso acontecendo só na novela, acho eu.
Essa misturança de ficção e realidade, que às vezes confunde  até a mim, está presente nos debates que se travam, postagem a postagem, nas redes sociais, com prioridade para o Facebook.  E é nesse cenário que se perpetram verdadeiramente as grandes bobagens e as grandes infâmias, as piores ignomínias, traduzidas pela defesa dos tiranos, o endeusamento dos medíocres, a força aos falsos heróis, a suspeição apressada e a desqualificação dos justos.  Todo mundo tem lado e em nome de suas crenças vale tudo.
Está em questão também a função das redes sociais, que se prestam para pautar e fomentar o debate, com a mesma força que abrem espaço para os desatinos.  Mark Zuckerberg   certamente pensava em uma função mais nobre para sua criação. O que me consola é que as redes,  como os veículos tradicionais que tem controle remoto para mudar de canal ou desligar, possuem mecanismos de não-participação para os insatisfeitos. Basta não curtir, não comentar, não compartilhar e, por fim, deletar os inconvenientes.