quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Farofada na fila

* Está aberta a temporada das grandes liquidações, por isso resgatei esse texto de 2009, mas tão atual como nunca.

Brasileiro adora uma fila, até mesmo para praguejar contra ela. Observador da cena que sou, fico pasmo quando se aproxima o Carnaval e constato as imensas filas que se formam, as vésperas do início da venda de ingressos para os desfiles. È uma farofada de cadeiras de praias, cozinhas e camas improvisadas, chimarrão e trago circulando de mão em mão, tudo isso pelo privilégio de serem os primeiros a adquirir os ingressos. Famílias inteiras, inclusive com bebês de colo, participam da maratona tresnoitada, onde não faltam garotas assanhadinhas e rapazes ativos e operantes. Tudo inútil. Sobram ingressos, assim que a fila dos apressadinhos se dissipa.

Esse comportamento que precede os grandes eventos sempre me intrigou. Essa gente não trabalha? Se é ociosa, de onde vem a grana para os desejados ingressos? Será que não existe nada mais interessante e produtivo para passar o tempo do que marcar espaço a espera da bilheteria abrir? E a higiene desse pessoal como é que é feita? Estava ruminando acerca dessas importantes indagações e dos sacrifícios a que se submetem esses vanguardeiros, quando me caiu a ficha: é que as emissoras de TV, cumprindo uma pauta pouco criativa, estão sempre presentes para captar imagens desses grupos. Aí é festa!

Observem as imagens: sempre há alguém dormindo ou se fazendo, mesmo que o sol já esteja a pino, outros repartindo refeições e bebidas das intermináveis garrafas térmicas e uma alegria artificial de quem está recebendo o justo reconhecimento dos 5 segundos de fama a que tem direito. Não foram escolhidos para o BBB, então só resta ser celebridade na fila. Podem conferir, as imagens são sempre as mesmas, como são as mesmas as óbvias perguntas dos repórteres. “Desde quando estão aqui?” Se for antes de show de artista pop não vai faltar cerveja e um rosário de sonoras identificando as cidades de origem

No velório do Michael Jackson consolidaram a ideia da fila na Internet. Já acho de extremo mau gosto esse negócio de transformar cadáver em espetáculo, mas mais de 1,6 milhões de fãs haviam se habilitado, sendo que apenas 8,5 mil receberam o privilégio de assistir de perto ao “evento”. Ou seja, nem a tecnologia acaba com as filas.

As inovações não param por aí. Um grande branco federal requintou o processo e criou a fila da fila. Funciona assim: o sujeito se submete a uma fila para receber uma senha que dá direito a fila do atendimento nos caixas. Detalhe: a primeira fila fica dois andares acima da fila final.

Foge a minha compreensão também aqueles atropelos nas lojas dos EUA – ou será no Japão? – no início das liquidações. É um comportamento que depõe contra o gênero humano. O pior é que a moda está pegando aqui no Brasil e dia de abertura de liquidação nas lojas mais populares é precedida de farofadas nas filas, com as mesmas cadeiras de praia, as mesmas garrafas térmicas, eventualmente uma barraca, gente insone, mas cheia de energia para comprar o que nem sempre precisa, mas garantir uma eventual participação televisiva. Empurra daqui, empurra dali e daqui a pouco se sobressai o fortão, carregando nos ombros uma tv de plasma, ou o casal que tenta ajeitar o refrigerador e mais os filhos numa velha Brasília. E é sempre a mesma coisa.

Estou sendo demasiadamente cruel com os hábitos populares? Pode ser, mas se um dia me virem participando de uma farofada dessas, chamem a SAMU e me internem.

*Publicado originalmente em Coletiva.net, em 8/7/2009