quinta-feira, 8 de agosto de 2013

No calçadão

A fauna humana passa pelo calçadão de Ipanema.  Podem me incluir, eu que frequento aquele espaço quatro ou cinco vezes por semana no horário destinado à terceira idade, ou seja, nas primeiras horas da manhã.  Nos 40 minutos que deambulo por ali conheço praticamente todos os parceiros de caminhada e corrida, incluindo o vice-prefeito Sebastião Melo, com seu andar desengonçado, precedido sempre da esposa Valéria, ela uma corredora de valor.

De resto, posso cronometrar o horário em que cruzo com o ex-comandante da Brigada Militar e sua esposa,  com aquele trio de senhoras que  formam uma escadinha e conversam animadamente,   com aqueles irmãos que vem tangendo um bando de cachorros, com o casal impecável em seus abrigos e que aparentemente passam a caminhada resolvendo problemas profissionais e com o abobado do calçadão, que cumprimenta a todos e a todas.  E tem os veteranos que querem ficar  bombados  e algumas gazelas desgarradas, balançando  eroticamente seus rabos de cavalo.

O pessoal que frequenta outros horários da conta de que ao longo da manhã a parceria feminina se qualifica e rejuvenesce.   Mas eu fora.

Nesse cenário, um caminhante vinha me  chamando a atenção em especial. Aparentando uns 70 anos, abrigo fora de moda, chapéu enterrado na cabeça e radinho na mão , ele cruzava por mim revelando incomum interesse no olhar.  Mal nos cumprimentávamos com um leve aceno de cabeça, mas aquela figura me instigava a imaginação. Por que o senhor idoso, de caminhar arrastado, cruzava daquela forma o meu caminho?

Foi então que caiu a ficha:  o velhinho era eu amanhã, eu retornando do futuro, talvez trazendo   alguma mensagem do porvir, tentando estabelecer contato.  Fiquei impactado com a revelação e enternecido com o meu clone setentão.  Se havia alguma dúvida do que significávamos um para o outro, o radinho companheiro foi a prova das nossas identidades.  E mais aquele jeito, aqueles olhos claros...

Não me perguntem o que tudo isso significa porque perdi o bom velhinho de vista.  Teria passado desta para uma melhor?  Seria essa a mensagem que ele tentava me passar, dando   indicações da minha finitude?  Como me arrependo de não ter dialogado com o outro Flávio .  Quanta informação e conhecimento deixei de absorver!  Pensando bem,  talvez tenha escapado de saber um montão de infortúnios e outro tanto de sacanagens.  Acho que fiquei no lucro, mas se o velho surgir de novo na minha frente passarei a acreditar em reencarnação.