segunda-feira, 25 de março de 2013

Caldo, ainda


Esse negócio de “caldo” está dando o que falar. A postagem anterior, A Teoria do Caldo, diferente do que pretendia o autor, lançou poucas luzes sobre a origem da expressão “da um caldo” e gerou mais indagações do que certezas. Eis que minha dileta amiga Cintia Votto, ela mesmo uma caldeável de primeira hora, coloca em contato o professor Ari Riboldi, autor da coluna A origem de palavras e expressões” no site Portoweb Cidadão, da Procempa, que oferece uma detalhada explicação etimológica da palavra “caldo” e por aí vai. Vale a pena conferir:

Dar um bom caldo
 
Caldo, do latim “caldus”, quente, aquecido, derivado do verbo “callere”, ser quente fisicamente ou psicologicamente. Os termos e expressões sempre têm uma origem literal e, por extensão, depois assumem acepções figuradas, por comparação. O caldo é o alimento líquido preparado a partir do cozimento, em água fervente, de carnes e outros produtos. É também o sumo de vegetais, frutas (cana, laranja, etc). Todos possuem alto valor nutritivo.

O caldo (canja) de galinha, por exemplo, é muito recomendado para nutrir em períodos de doença, após o parto, na chamada quarentena), depois de um “porre”. Revigora o corpo, devolve as energias e a capacidade física.

Na linguagem das relações sexuais, há muitos tabus – faço palestras também sobre esse tema para homens e mulheres. Empregam-se muitos eufemismos e metáforas para não ir direto ao assunto. As pessoas têm medo de falar do tema e de dizer os termos anatomicamente normais.  Nesse contexto, aparece também o “caldo”, “dar um bom caldo”. Como sou prático, venho da roça, conheço a lida diária, encontro resposta ali para decifrar palavras e expressões, pois são sempre de origem pragmática, calcadas no fazer cotidiano.

P or submissão histórica da mulher, a linguagem sobre sexo sempre tem a visão do homem, é machista. Fulano “comeu” a fulana. E o homem marcava na parede “mais uma”. Seu valor, no meio dos homens, era marcado pela quantidade. Por isso contar aos outros era essencial. Não sei se anatomicamente é o homem que “come”; parece que o verbo seria mais adequado para o que a mulher faz no ato sexual. O termo de agora é “pegar”. O homem deve ser pegador.

Mulher bonita, jovem, de boas carnes era, em tempos idos, um galeto. Sob o ponto de vista masculino, apetitosa, viçosa para ser comida. Como galeto, cozia rapidamente, dava bom caldo e suas carnes podiam servir também de alimento. Atualmente, o galeto fó substituído por gata, em alusão à beleza dos felinos.

Uma galinha velha não ferve na primeira fervura. Pode dar bom caldo, mas precisa de muita lenha no fogo, precisa de muito gás para manter a panela em alta fervura, em alta temperatura, por um longo tempo. Vai render uma boa canja, um bom caldo. A carne, possivelmente, deva ser desprezada, atirada aos cães, porque dela se extraiu tudo e ainda ficou dura para nossos dentes.  Dar um bom caldo, portanto, é ser atraente fisicamente, ter carnes esbeltas, esguias, atraentes aos olhos.

Com a emancipação da mulher, a linguagem sobre sexo tornou-se um pouco menos machista. Antigamente o homem era o lobo, o caçador. A mulher tinha que esperar, ficar bem composta, para não parecer oferecida e promíscua. Hoje ela tem o direito e a liberdade de também ser “caçadora”, embora ainda existam porco-chauvinistas e machistas reacionários.

Caldo, canja, galinha, alimento, sexo, comer, palavras que possuem um fundo cultural que retrata os costumes, o pensamento vigente em determinada época. São as palavras que “tecem” o “tecido” social de um “contexto” maior. Quem ainda possui vestígios de beleza, apesar dos anos, ainda dá um bom caldo. Como se verifica, caldo é uma metáfora, uma comparação direta. Já escrevi demais. Fico satisfeito se algo acrescentei para esclarecer o tal “caldo”.

Espero não ter entornado ainda mais o caldo. Meu intuito foi o de trazer mais luz aos já brilhantes comentários sem ferir suscetibilidades. Quem “ainda” pode dar um bom caldo está em decadência, pois o “ainda” é terrível. O “ainda” retrata algo que está por findar, no ocaso, no crepúsculo, com os dias contados.

PS: Sou um “expert” em galinhas. No programa Jô Soares, da TV Globo, fiz uma galinha dormir na frente do Jô e de sua plateia. Era uma franga paulista que conheci durante a entrevista. Portanto foi uma hipnose sem truques. Um abraço a todos.

Professor Ari Riboldi